“SE PODES OLHAR, VÊ; SE PODES VER, REPARA” (Saramago)

No ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, Saramago propõe a diferença entre o olhar e o ver. O olhar, sendo o próprio ato de enxergar e o ver, como a observação, a análise do que se viu.

Nesta obra, Saramago nos propõe um desafio: sairmos de nossas bolhas e olharmos para os lados, para partilhar, afetar o outro e sermos afetados.

A pandemia pelo COVID-19 vem nos desinstalando de posições cômodas, egoístas e estruturadas, consensualmente, despertando-nos para a tomada de consciência importante a respeito de nós mesmos e do mundo em que vivemos. Adeus aos territórios demarcados por funções específicas de cada instituição, de cada órgão; fomos obrigados a olhar para os lados, o que nos mostrou novas formas de convivência e, com todas as “lives “, programas e entrevistas, que se multiplicaram em todo esse tempo, vemos a horizontalidade nas discussões entre os saberes estabelecidos e pontes entre eles, pontos em comum , proporcionando, na maioria das vezes , uma visão sistêmica na abordagem das situações. Metaforicamente é como se as ilhas de conhecimento e atuação, que formavam um grande arquipélago, por causa de um grande terremoto, juntaram-se e passaram a dividir o mesmo espaço, solidarizando-se no mesmo chão, comum a todas. E isso despertou uma nova forma de ver as coisas ao nosso redor.

Para a Professora de Filosofia da UFSC, Milene Consenso Tonetto, em seu artigo “Ética Global, Direitos Humanos e a pandemia da COVID-19”, no livro REFLEXÕES SOBRE A PANDEMIA (2020), a página.125 nos diz que “ a pandemia não respeita as fronteiras nacionais” e “ o comportamento de uma nação ou região pode afetar outras”. Continua dizendo que “ O ´locus´ ético é o globo” e que “Somente uma resposta compartilhada será suficiente para lidar com esse problema. Em suma, estamos olhando para todos os lados e vendo, todos, com o que nos preocuparmos e o que podemos fazer. Destruição de florestas, consumo desenfreado e mudanças climáticas são alguns dos tópicos sobre os quais precisamos de uma visão sistêmica para as suas possíveis – tomara- soluções. Dessas visões e questionamentos que começam a aparecer com mais força, atualmente, revela-se a importância de existirem prioridades bem definidas para se elaborarem políticas públicas com um trabalho integrado entre os 1ºs, 2ºs e 3ºs setores da sociedade. Essa é a nova realidade para um mundo com pontes e não com muros.

É claro que os órgãos oficiais e a sociedade civil trabalham o melhor que pode as suas áreas, mas são trabalhos que se esgotam em cada setor. É necessário ver e “reparar” no que pode ser feito para um trabalho conjunto, mais coerente, humano e eficaz, com novo modelo de atuação para o atendimento da população.

Muitos dizem que sairemos melhores desta pandemia. Outros dizem que o ser humano não tem jeito, que continuará o mesmo. Realmente não sei, mas o que percebo é que os efeitos dessa pandemia forçou o nosso olhar para a análise de todo esse contexto, certamente nos levando a contestar o que serviu até agora e não mais serve, tanto no plano individual como o social e a olhar o que está ultrapassado, obsoleto em todos os campos de nossa atuação e crenças.

Em São José do Rio Preto, SP, o Juiz da Vara da Infância e Juventude determinou às escolas municipais não reprovarem os alunos que não possuem computador e que fizeram seus deveres por material cedido pela escola, sem orientação direta, “online” pelo professor. Coerente e justa a determinação, mas ela também nos leva a pensar nos conteúdos passados pelas escolas nas aulas via internet. Este é o momento de repensarmos o currículo escolar, com os assuntos já comprovadamente ultrapassados.

Segundo Yuval Noah Harari, em seu livro 21 LIÇÕES PARA O SÉCULO 21, pág.320: “atualmente, é enorme a quantidade de escolas que se concentram em abarrotar os estudantes de informação. No passado isso faria sentido, porque a informação era escassa…”, mas “No século XXI, estamos inundados por enormes quantidades de informação…” e o que os alunos precisam é da “capacidade para extrair um sentido da informação, perceber a diferença entre o que é importante e o que não é”. Segundo ele, “O mais importante de tudo será a habilidade para lidar com mudanças, aprender coisas novas e preservar seu equilíbrio mental em situações que não lhe são familiares”. A pandemia está aí, despertando a educação para reinventar-se. Precisamos olhar, ver e reparar.

Assim também, no contexto da dependência química, que é uma doença multifatorial, o que os municípios fazem para o tratamento de seus adictos? Há setores que trabalham, é certo, tanto os oficiais como os da sociedade civil, mas todos de forma estanque, sem um não saber o que o outro faz. Muitas vezes o jovem que passa pelo CAPS, também está matriculado numa escola e, também, passa por medidas socioeducativas no Ministério Público, além de participar de reuniões de grupos de sobriedade da igreja ou de grupos anônimos, de Amor-
Exigente ou grupos de mediação. Como a pandemia está nos forçando a olhar para os lados e ver o que cada um pode fazer numa estrutura de cooperação social de tratamento, penso sempre , para os vereadores e prefeitos, na proposição de um plano de ação, como política pública que contemple uma rede de proteção, uma “força tarefa” destinada à FAMÍLIA, ESCOLA E COMUNIDADE. E todos da rede interligados num atendimento integrado com, por exemplo, CAPS , ONGs, ESCOLA, CTs, EMPRESAS, MINISTÉRIO PÚBLICO, SECRETARIAS MUNICIPAIS, entre outros. Se a doença é multifatorial, que o tratamento seja abrangente, com múltiplas ações. Com esse novo olhar para os lados, não há como não pensar em políticas públicas com foco sistêmico para o tratamento da dependência química e para a prevenção.

Maria Lúcia Oliveira Gil, Coordenadora Regional de AE de Araraquara- SP, diz em um texto na página da Regional que: “Uma das coisas que atrapalha a tomada de atitude é a resistência ao esforço e ao sacrifício. Mudar é difícil, requer cuidado. Que não tenhamos resistência com o que queremos mudar”

Sim! Que não resistamos ao mudar nossa visão de nossas crenças e nossos espaços de ação já estruturados.

Nosso tempo pede um novo “software”. O futuro está aberto, mas já temos uma visão do modo como ele poderá funcionar, abandonando velhas respostas e, a partir de novas perguntas, vislumbrar novas formas de nos movimentarmos entre nossos problemas e suas soluções. O contexto da dependência química aí está, pedindo esses novos olhares também – e principalmente.

No Amor-Exigente, temos o 8º Princípio que diz: “ De uma crise bem administrada surge a possibilidade de uma mudança positiva”.

Essa frase parece óbvia, mas é muito difícil administrar bem nossas crises, sabermos a medida certa Precisamos de apoio. E a sociedade também precisa de orientações por conta de suas implicações ideológicas, religiosas, políticas e de conflitos de opiniões.

Mas a pandemia é argumento poderoso para forçar todos a olharem numa só direção para atingirem um novo patamar de funcionamento social, em que se envolvam os indivíduos, suas famílias, os órgãos oficiais e a sociedade civil.

Este é o momento em que todos estamos forçados a olhar e a ver todos os lados para repararmos que, juntos, podemos mais.

A conferir.

Torcendo por aqui.

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