Prevenção de Recaída baseada em Mindfulness

O programa Mindfulness- Based Relapse Prevention (MBRP)- chegou ao Brasil pelo Departa-mento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)- em 2011, fruto da pesquisa do doutorado de Isabel Weiss, sob orientação da professora doutora Ana Regina Noto. Importantes parcerias fortaleceram essa pesquisa, como com o próprio doutor Alan Marlatt, que, inicialmente, dispôs-se a contribuir na adaptação de MBRP para a população brasileira com comportamentos aditivos. Por motivos pessoais que antecederam seu falecimento, Dr Marlatt precisou se afastar e apresentou aos pesquisadores da UNIFESP uma das principais pesquisadoras de seu grupo, a Dra Sarah Bowen, que vem dando continuidade aos trabalhos e consolidando esta parceria tão exitosa.


MBRP vem se mostrando uma ferramenta muito importante e que pode contribuir, significativamente, na recuperação de pessoas com transtorno por uso de substâncias (TUS) como as já excelentes intervenções com recursos da Terapia Cognitiva Comportamental (TCC) e da Prevenção da Recaída (PR).

A sigla MBRP é usada mundialmente e foi consenso do grupo de pesquisadores brasileiros e da própria Dra. Sarah Bower mantê-la, também no Brasil, para ser identificada na literatura internacional.


A prevenção de recaída, baseada em mindfulness (MBRP), é um programa que integra práticas de meditação mindfulness e prevenção de recaída tradicional (PR).

Abaixo, um breve histórico, para compartilhar como eu, especialista em dependência química e profissional com trajetória em Comunidades Terapêuticas e consultório, aproximei-me e incluí mindfulness no meu percurso pessoal e profissional.


Em 2018, ainda morando em Campinas e atuando em consultório, senti vontade de conhecer técnicas de meditação e fiz um curso de 6 meses. Gostei muito da experiência pessoal de meditar e, nesse curso, entrei em contato com mindfulness que me pareceu uma abordagem muito útil e generosa, quando propõe, como definição “prestar atenção de um jeito específico, de propósito, no momento presente e sem julgar “(Kabat-Zinn). Fiz minha inscrição na Escola do Presente para fazer as 8 semanas de mindfulness (método como o treinamento é realizado) com o instrutor Marson Ferreira, físico formado pela Unicamp. Durante as 8 semanas, fui percebendo que estava entrando em contato com questões muito simples e ao mesmo tempo profundas que me remetiam à minha essência. A proposta de mindfulness não é relaxar e sim nos colocar em contato com o momento presente, sem julgamento. E, nesse processo, tomo uma decisão muito importante que é voltar para Santos, depois de 39 anos, quando saí para estudar e trabalhar. Não pensem que foi uma decisão impulsiva. Muito pelo contrário, foi uma decisão em respeito ao meu momento presente e ao que estava escolhendo para minha vida pessoal e também profissional, porque comecei a perceber que eu estava conhecendo uma ferramenta muito útil para processos de mudança de estilo de vida.


Como comecei a pensar na inclusão de mindfulness também na minha vida profissional, senti necessidade de estudar e encontrei um curso de extensão no Sedes Sapientae em São Paulo, ministrado pela psicóloga Márcia Epstein, que se intitulava Mindfulness e Compaixão. Nesse curso, conheci Mayra Machado, da Unifesp, que veio nos dar uma palestra sobre o MBRP e tomei conhecimento do curso de especialização. Não hesitei em pedir informações e, em 2019, fiz o curso de formação para instrutores em MBRP como especialização na Unifesp.
Esse curso me trouxe novos olhares em relação à Prevenção de Recaída tradicional, que é uma intervenção cognitivo-comportamental, para ajudar a prevenir ou controlar recaída em pacientes após tratamento para problemas de comportamentos aditivos. O MBRP é planejado como um programa pós-tratamento ambulatorial para apoiar a manutenção dos ganhos de tratamento, para lidar com impulsos ou fissuras que podem ser gatilhos para recaídas em vários comportamentos aditivos e para promover um estilo de vida sustentável para indivíduos em processo de recuperação.


Muito do que se tem pesquisado, na área, tem levado ao que Marlatt chama de “caminho do meio”, ou um equilíbrio entre permissividade nociva e renúncia estrita, bem como entre autodisciplina e autocompaixão.


Marlatt relatou que ele e seus colegas se encontraram caminhando em direção a uma abordagem mais balanceada, percebendo que incorporar habilidades de atenção com base em princípios de autocompaixão e aceitação de todas as experiências, incluindo fissura e impulsos, poderia ter resultados muito mais assertivos que abordagens de aversão para a redução do risco de recaída. A prática de mindfulness (atenção plena) fornece meios eficazes para mudança cuidadosa e intencional do comportamento, enquanto enfatiza bondade e flexibilidade. É um conceito com muitas evidências médicas científicas que exerce influência sobre a saúde, bem-estar e felicidade. Porém, por ser uma prática, é preciso cultivar. E seu cultivo é um processo que acontece e se aprofunda com o tempo. Por ser um processo, precisa que seja assumido um compromisso sério consigo mesmo, o que vai exigir persistência e disciplina. Segundo Jon Kabat-Zinn “é preciso também uma dose de despreocupação e leveza. Esta leveza, aliada a um envolvimento constante e profundo, é uma característica do treinamento de atenção plena em todas as suas diferentes formas”. Kabat-Zinn ressalta ainda a necessidade de se ter uma boa orientação ao longo do caminho, porque estão em jogo nossa qualidade de vida, relacionamentos, bem-estar, equilíbrio mental, felicidade e postura diante das dificuldades.


Essa ressalva, feita por Kabat-Zinn é de suma importância, porque muitas pessoas assistem a uma palestra, leem um livro e se sentem aptas para instruir grupos e podem causar danos e depor contra uma ferramenta tão valiosa. Cabe dizer também que mindfulness não é indicado para todas as pessoas e, por isso, foi desenvolvido um protocolo de segurança a ser aplicado antes de as pessoas começarem a participar das 8 semanas.


Mas o que mindfulness pode oferecer para pessoas com dificuldades em comportamentos aditivos? Segundo Marlatt, o foco é ajudar pessoas com comportamentos aditivos a “ver as coisas como realmente são” em vez de se concentrarem no passado, futuro ou irem em busca das substâncias. É enfatizado reconhecer, sentir e aceitar o desconforto, quando ele surge, e compreender a experiência, em vez de tentar fugir, negar. Mindfulness pode proporcionar “recursos hábeis e eficazes” para o manejo dos impulsos e fissuras, ou seja, observar os impulsos e fissuras, sem ser anulado ou consumido por eles.


Como afirmou Viktor Frankl (1946): “Há um espaço entre estímulo e resposta. Nesse espaço, está nosso poder de escolher a resposta. Em nossa resposta se encontra nosso crescimento e liberdade.”

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