Muitas são as causas que nos levam a experimentar drogas, tais como: a sensação de vazio, o desamparo, a busca de desafios e de adrenalina, o desejo de pertencer a um grupo específico e, simplesmente, apenas por curiosidade. Outros vão experimentar drogas para anestesiar alguma dor emocional com a qual não sabem como lidar com ela. Na verdade, cada indivíduo dentro de suas particularidades e unicidades, terá o seu próprio motivo. Não existe uma equação matemática para isto. Por outro lado, algumas pessoas experimentam drogas e passam a fazer uso frequente dela em decorrência do bem-estar emocional que estas provocam, uma espécie de “anestesia emocional”, uma forma de desligamento das suas dores mais profundas.

Algumas pessoas usarão drogas para lidarem com seus traumas. A palavra trauma vem do grego antigo e significa ferimento. Aqui trataremos o termo trauma, exatamente neste sentido, como uma ferida emocional e psicológica. Mas o que vem a ser um trauma psicológico? Trata-se de um dano que ocorre na mente que é resultado de um evento angustiante, o qual contém uma grande quantidade de estresse que excede a capacidade da pessoa de enfrentar tal situação de forma assertiva. Vale salientar que o efeito do trauma varia de pessoa para pessoa, pois nem todos reagem de modo equivalente diante de um mesmo fato. Fatores de proteção e de risco são determinantes para a pessoa conseguir manejar seu trauma.

O médico e professor canadense Gabor Maté defende que comportamentos obsessivos-compulsivo tais como o transtorno por uso de substâncias têm origem em traumas, e que estamos combatendo os efeitos e não as causas. Segundo ele, devemos investigar quais são as dores emocionais que levam a pessoa a procurar uma sensação de bem-estar e alívio com as drogas. Será que aqui no Brasil estamos atentos as estas particularidades do tratamento e dos pós- tratamentos, os quais ajudariam na condução da recuperação a longo prazo?

Nem todas as pessoas que sofreram traumas se tornarão dependentes de substâncias. No entanto, todos os dependentes passaram por traumas enquanto uma ferida emocional e psicológica. Precisamos repensar nossa abordagem sobre este assunto, tendo em mente que a adicção pode ter em alguns casos a origem em um trauma, não sendo sempre possível identificá-lo.

Enquanto não tratarmos o trauma não estaremos tratando a causa real do problema. Isto talvez explique, em parte, o grande número de recaídas durante o processo de recuperação. Portanto, em um primeiro momento, o trauma que gera a dor emocional, a falta de conexão, o isolamento e o estresse acabam sendo aliviados ingenuamente pela substância psicoativa.

Na verdade, a pessoa tem um problema (no caso a dor emocional) e pode encontrar nas drogas um alívio imediato, mas que em longo prazo acarretará outros diversos problemas. Isto porque ela desenvolverá um transtorno mental chamado transtorno por uso de substância (TUS). O TUS relaciona-se com o trauma? Podemos perceber que o TUS nem sempre se relaciona. Mas, muitas vezes pode estar relacionado a traumas vividos na primeira infância, como abusos emocionais, abuso sexual ou outros como abandono e separação dos pais.

Dentro deste contexto, devemos ter sempre um olhar mais humanizado uma vez que ao olhar para um usuário de drogas, pode existir uma pessoa que foi uma criança que sofreu um trauma e que tem uma história prévia ao uso, inclusive. Podemos estar olhando para um ser humano que sente dor emocional e não sabe, e precisa de ajuda.

Muitas pessoas que sofrem abusos severos na infância acabam tendo a sua química cerebral alterada; crescem com um profundo vazio na alma que acaba sendo preenchido pelo uso de drogas. Portanto, “a dependência não reside na droga, ela reside na alma”. A adicção não é uma escolha, ninguém decide ser tornar um usuário de crack crônico aos 30 anos de idade. Inicialmente é uma doença adquirida de forma benigna, onde o indivíduo encontra um prazer ou alívio imediato, mas que com o passar do tempo passa a sofrer as consequências negativas do uso e não consegue parar em razão da obsessão e compulsão. Fisiologicamente, devido à neuroplasticidade principalmente no centro de recompensa cerebral, aos poucos vai ocorrendo uma adaptação e modificação de conexões cerebrais pelo uso das substâncias com maior tolerância a elas e, por fim, tornando-se uma doença crônica. Existem causas genéticas, mas em muitas famílias vemos o TUS passando de geração a geração em razão da modelagem do comportamento dos filhos ao comportamento disfuncional dos pais.

Por fim, precisamos ter em mente que, ao tratarmos com pessoas com transtorno por uso de substância, precisamos ter um olhar mais profundo para que possamos com compaixão conseguirmos enxergar a sua alma cheia de dor e não somente a droga. Infelizmente, a nossa sociedade ainda criminaliza e trata com preconceito este indivíduo que sofre de uma doença e acaba segregando-o do espaço social, haja vista as nossas Cracolândias. De acordo com o professor Maté: “dependentes de drogas são sempre pessoas com fragilidades emocionais causadas por traumas na infância”. A nossa triste realidade é que se confunde a droga com o ser humano. Dentro deste contexto, precisamos refletir e mudar os nossos paradigmas.

Fonte: Peter Levine e Gabor Mate. In the Realm of Hungry Ghosts: Close Encounters with Addiction, Vermelion, London, 2016

Por Janete de Oliveira Pereira. Graduada em Artes Visuais, graduanda em Psicologia e especialista em Dependência Química pela UNIFESP

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