PERCEPÇÃO DA RELAÇÃO FAMILIAR ENTRE FILHOS DEEPENDENTES QUIMICOS E SEUS PAIS

 

PARTE 1

INTRODUÇÃO

O consumo de substâncias alucinógenas ou anestesiantes é realizado desde os primórdios de que se tem registros do desenvolvimento da humanidade. Este consumo era regido pelo prazer e diversão, para a adoração de deuses, usado também para tratamentos de saúde. Diante desses fatos, o uso foi se tornando cada vez mais frequentes, porém a civilização não sabia de suas consequências, mas seus efeitos até então estavam sendo correspondidos conforme o esperado. Historicamente o consumo de drogas, na opinião de Ferla e Santos (2017), pode ser considerado como prática e costume tido como milenar e universal, e envolve questões religiosas, econômicas, culturais, políticas e sociais. O que diferencia é a forma e o modo de consumo e seu objetivo, podendo ser observado em todas as sociedades.

O uso de drogas data de tempos remotos, mas apenas no século XIX que os problemas de álcool e drogas, até então de ordem moralista e religiosa, começam a ser vistos pela medicina, ou seja, nesse movimento iniciava-se o olhar patologizante da questão do uso de álcool e drogas alastrando mundialmente a necessidade de proibição do uso. Pratta e Santos (2009), dizem que os “conceitos de saúde e doença, bem como a questão do uso de substâncias psicoativas, sofrem uma influência direta do contexto histórico, cultural e social, a partir do século XX, são constatadas transformações no que diz respeito ao processo saúde/doença”.

O Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Psiquiátrica Americana (DSM V, 2014, p. 481), diz que indivíduos com baixo nível de autocontrole, o que pode ser reflexo de deficiências nos mecanismos cerebrais de inibição, podem ser particularmente predispostos a desenvolver transtornos por uso de substância.

A Classificação Internacional de Doenças (CID 10), aborda sobre os transtornos mentais que o uso de substâncias psicoativas pode causar. “Compreende numerosos transtornos que diferem entre si pela gravidade variável e por sintomatologia diversa, mas que têm em comum o fato de serem todos atribuídos ao uso de uma ou de várias substâncias psicoativas”. O uso de substâncias psicoativas assumiu proporções alarmantes, tornando-se um complexo problema em termos de saúde pública, atingindo grande parte da população mundial.

Hoje podemos observar em dados tais proporções alarmantes que atinge nossa sociedade, sendo considerada a dependência química uma doença crônica e incurável, mas com tratamento. Segundo os dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC ,2018) atinge cerca de 5,6% da população global entre 15 e 64 anos. São resultados alarmantes, pois os impactos gerados pelo uso abusivo de drogas, traz um desmantelamento familiar gigantesco, somando um conjunto de fatores que fortalece uma relação familiar conturbada.

A dependência química segundo Divisão Estadual de Narcóticos (DENARC), é uma doença crônica e incurável, é uma doença que não afeta somente o dependente e sim, todos ao seu redor. Com isso, traz consequências gravíssimas dependendo do grau em que se encontra sua dependência. Consequências essas, que transforma o seio familiar, sendo uma progressiva transformação de comportamentos entre todos que faz parte deste contexto. Falar do uso de drogas não é falar apenas de uma questão biológica, é falar de um indivíduo integral, para o qual as drogas possuem uma representação específica.

Relação Familiar e Representações Sociais

A relação familiar faz parte do contexto de qualquer indivíduo quase que obrigatoriamente. Tal interação impõe aos membros experiências muito particulares na qual cada um afeta e é afetado pela expressão dos participantes deste grupo. No entanto,

cada sujeito irá lidar com seus sentimentos e emoções da maneira que lhe for possível experimentar e atribuir significados nesta relação. A partir deste ponto, pode-se ser observado as representações de cada família.

A família, como instituição anterior ao estado e ao direito, é o âmago, o núcleo da sociedade e o lugar no qual se insere o indivíduo, mais intimamente, durante toda a sua vida. O ser humano sempre está em família, mesmo que saia da original para constituir uma nova no decorrer de sua vida. Contudo, o conceito de família não é certo e muito menos específico, já que sofreu transformações no decorrer da história da humanidade (Alves, 2014).

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, n.d), ao conceituar família, define como “um conjunto de pessoas ligadas por laço de parentesco, dependência doméstica ou normas de convivência, residente na mesma unidade domiciliar, ou pessoa que mora só em uma unidade familiar” (conceitos, parágrafo 9). Atualmente a família é entendida não apenas por vínculos de sangue, como igualmente através do afeto, solidariedade e amor recíproco.

Nesta relação familiar, pode haver uma relação simbiótica, um termo provindo da biologia emprestado para psicanálise, que significa uma relação estreita, com um proveito mútuo, uma relação de troca entre o outro (Chatelard & Cerqueira, 2015). É possível identificar esta relação quando se trata de mãe e bebê, mais além, esta relação pode ser encontrada em algumas famílias quando seus filhos estão na fase adulta, pois o cuidado excessivo e a negação de si mesmo inconscientemente pode ser chamada de codependência. Este termo define-se segundo Faria (2003), como joga o foco na outra pessoa, faz muito por ela e pouco por si. Não porque seja altruísta, mas porque se acha onipotente. Controlando a vida de outra pessoa, ele acredita que a dele estará sob controle também.

O primeiro contato que a criança tem com o mundo é através da mãe, ou aquele que exerce esta função maternal, logo após segundos do seu nascimento. A partir de seu crescimento, vem obtendo e construindo uma relação social, pois passa a perceber que existem mais pessoas além de sua mãe, pai, irmão, tios, avós. Estes são os primeiros vínculos do bebê. Neste seio, vai aprendendo a criar comunicação, e maneiras de se expressar de acordo com sua família. A autora Pio (2007), diz que o parto é a porta de entrada do novo ser no meio social e a presença do pai é fundamental para a mãe e para a criança, pois ambos agora estão juntos pela primeira vez, após nove meses de forte ansiedade e muitas fantasias. A relação mãe-bebê é a evolução das relações sociais ou seja, é a primeira relação social da criança.

Após o nascimento, para o bebê, a vida lhe proporciona logo de início, experiências muito intensas, pois ainda é uma pessoa tão pequenina buscando sobrevivência em todas as experiências. O pai e a mãe possuem a responsabilidade de cuidar do bebê para que possa transformar-se num adulto sadio (Pio, 2007). Esta relação continua em todas as fazes do desenvolvimento.

No desenvolvimento relacional familiar na adolescência segundo Pratta e Santos (2007), dizem que as relações passam a se expandir conforme o desenvolvimento social da criança, assim sofrendo constantes influências, não que não sofra influências dentro de casa, mas fora também. Sendo assim, há uma necessidade constante de adaptação da rede complexa da relação familiar diante das constantes transformações que ocorrem no âmbito familiar. Cada etapa envolve processos emocionais de transição, bem como mudanças primordiais para dar seguimento ao desenvolvimento tanto individual quanto familiar. Por mais que os filhos tenham outros contatos e outras relações, a relação que mais apresenta um vínculo mais forte, é a ligação pais e filhos. Apesar de todo o desenvolvimento relacional, ainda existe nesta fase, o desenvolvimento físico, chamado

de puberdade, sendo o momento que traz muitas alterações físicas ao momento da adolescência, trazendo um grande impacto biopsicossocial nesta fase.

O mesmo autor citado acima, salienta ainda que “além disso, é necessário ressaltar ainda que o processo de adolescência não afeta apenas os indivíduos que estão passando por este período, mas também as pessoas que convivem diretamente com os mesmos, principalmente a família. Isso porque a adolescência dos filhos tem influência direta no funcionamento familiar, constituindo-se, portanto, como um processo difícil e doloroso tanto para os adolescentes quanto para seus pais, uma vez que, como já foi discutido anteriormente, a família não é constituída pela simples soma de seus membros, mas um sistema formado pelo conjunto de relações interdependentes no qual a modificação de um elemento induz a do restante, transformando todo o sistema, que passa de um estado para outro”.

Como Pratta e Santos (2007) disse, um processo difícil e doloroso, quis dizer que neste processo a família passa por conflitos relacionais, aumento de brigas, disputas entre pais e filhos, porém Barreto e Rabelo (2015), dizem que os pais tendem a abster-se de enfrentar os filhos e na sua educação nesta fase, pois acreditam que desta forma não serão vistos como autoritários e assim não atrapalharão o desenvolvimento deles. Com isso, a falta de comunicação no âmbito familiar, pode trazer como consequência evidenciar algumas dificuldades, principalmente em torno relacional (Pratta & Santos, 2007).

Barreto e Rabelo (2015), empodera os pais sobre o seu papel dizendo que a educação não é apenas um dever dos pais, mas também um direito, porém deixando de lado pela crença de que disciplina é autoritarismo. Por consequência da falta de equilíbrio, os autores ressaltam que quando não conseguem se manter firmes na disciplina, traz na maioria das vezes um comportamento de rebeldia refletindo nas dificuldades de não saber lidar com regras, muita das vezes levando o adolescente ao uso de drogas. Aragão,

Milagres e Figle (2009), dizem que a presença de um dependente químico dentro de casa está associada com distúrbios na harmonia e na convivência familiar afetando os familiares do mesmo.

Neste contexto a familiar, podendo envolver substâncias alucinógenas, vem apresentando dificuldade relacional trazendo questionamentos dos pais se perguntando onde erraram, um sentimento de fracasso e culpa. Medeiros et al (2013), diz que o adoecimento dos filhos abala profundamente a autoestima dos pais, uma vez que significa que houve falhas no sistema familiar. Tais falhas podem ser da sobrecarga que os pais sentem diante de mudanças, mudanças gerais. Medeiros continua dizendo que o conceito de sobrecarga é multidimensional, pois envolve diversos aspectos relacionados aos sintomas e comportamentos do paciente que interferem na rotina e na dinâmica das famílias. Tais aspectos desorganizam o dia a dia dos membros familiares, exigindo-lhes tarefas extras de cuidado e acarretando-lhes um estresse crônico com o qual devem aprender a lidar.

Beatite (2007), explica que essas crises familiares vêm de uma frustração de tentativa e erro dos papéis e funções frente às novas exigências. Com isso, evidencia mais o impacto que os fatores estressores podem causar em seu convívio, assim provocando o aparecimento de sintoma. Quando identificado a codependência na família, no qual apresenta laços afetivos que parecem indestrutíveis e estáveis, contudo, as mudanças que acometem o ciclo familiar como fatores estressores, seria algo que deveria combater este laço indestrutível, mas ao contrário, permanecem estáveis, assim mantendo um sistema relacional simbiótico.

Conforme Faria (2003), A codependência é um sintoma que tem como característica uma relação de controle sobre o outro, talvez por questões intimamente pessoais, como baixa estima, conceitos negativos, dificuldade de impor limites,

basicamente a pessoa se auto negligencia, e faz do problema do outro como o seu problema, podendo trazer a ideia de medo de ser abandonado, consequentemente por condutas compulsivas, agindo pelos extremos sendo extremamente responsável ou irresponsável.

Colossi e Paz (2013), dizem que o filho produz comportamentos de maneira autodestrutivas, assim chamando a atenção da família para si, desta maneira, faz com que o casal se une para em torno do filho, mas sendo mobilizados pela sintomatologia adicta contribuindo para a manutenção da homeostase do sistema familiar. Portanto, a dependência química faz com que os pais tirem o foco de si, e de seus problemas, sendo como um estabilizador do sistema familiar, focando apenas em um problema, da drogadição. Assim, cabe dizer Dinâmica Familiar da Dependência Química, que o conflito parental se constitui num aspecto preditor da manutenção da sintomatologia adicta, piorando os sintomas do filho (Orth, 2005).

Famílias que produzem dependentes químicos são definidas por Kalina (2001) como “famílias psicotóxicas”, já que a busca de substâncias psicoativas para o enfrentamento dos problemas se apresenta como modelo indutor abusivo, representando, não raro, a dupla mensagem parental, já que o discurso refere à proibição e o comportamento não verbal é o do uso de substâncias para alívio do sofrimento.

Colossi e Paz (2013), mostram a importância da família no uso de drogas, já que os fatores familiares têm sido relacionados ao uso, abuso e/ou dependência de drogas, comprometendo a coesão e o funcionamento familiar. Diante disto, esta relação com a dependência química, autores defendem que o contexto familiar influencia nesta relação podendo ser violência intra-familiar, alcoolismo de um dos pais, transmissão genética familiar, separação dos pais, estrutura e relação afetiva familiar, dificuldade de

comunicação com os pais na adolescência (Costa, Horta, Macedo, Rodrigues, & Strey, 2008).

Os membros da família codependentes, não conseguem estimular uns aos outros a alcançar uma independência individual e familiar (Faria, 2003). Então, Pratta e Santos (2009) abordam a compreensão desses aspectos como fundamental para se pensar no processo de reabilitação, essencialmente no que se refere à eficácia do tratamento, pois o conhecimento produzido sobre o fenômeno da drogadição não pode estar desvinculado do contexto mais amplo no qual são produzidas as representações que sustentam e organizam a vida social, conferindo sentido às ações humanas.

Para que haja uma compressão melhor do que está no entorno familiar, precisamos compreender as representações sociais que os envolve, pois esta representação traz simbolicamente como a questão das drogas são elaboradas pelos familiares de dependentes químicos, como agem diante deste fator, e também como é para quem está na condição de dependente. Assim, as representações sociais são teorias sobre saberes populares e do senso comum para a compreensão do contexto social por meio de discursos compartilhados coletivamente e, por seu dinamismo, uma realidade comum, que possibilita a comunicação entre os grupos, facilitando, assim, a compreensão dos fenômenos (Dias et alt, 2013).

Na literatura encontrou-se a pesquisa de Dias et al (2013), sobre relacionamento familiar e dependência química, afirmam que os fenômenos socialmente constituídos são aplicados simbolicamente, ou seja, seus significados são investidos de acordo com o que lhe dão sentido, sendo assim uma representação que se torna comum. É uma ação que possui uma reconstrução do contexto pessoal de valores, reações, regras com o qual se torna solidário. A linguagem o traz para o fluxo das associações, o investe de metáforas, o projeta no espaço simbólico (Bussab, Leme & Otta, 1989).

Representações Sociais, possui uma extensão para o entendimento dos modos da percepção em representação da dependência química para a família e sua relação diante deste contexto, e seus efeitos sobre a construção das relações sociais. Compreendendo desta maneira que a dependência química vai além de um modelo biomédico, assim evidenciando as complexas relações que existem entre o biológico e o social e a interface entre senso comum e o pensamento científico, possibilitando explicitar o tipo de relações sociais que se estabelece na prática cotidiana.

Com base no exposto, este estudo buscou identificar as possíveis correlações entre o sistema de funcionalidade familiar e sua influência nos comportamentos de filhos com dependência química. Para tanto, hipotetizou-se que dentre as formas conhecidas de como famílias se relacionam e, havendo filhos dependentes químicos encontrar-se-iam, o tipo de relacionamento simbiótica.

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