Pacientes e seus processos de transferências no TUS (transtorno de uso de substância)

(Artigo escrito pelo recém formado em psicologia Samuel de Souza Ferreira e com o psicólogo André Luís Granjeiro, colunista desta revista e especialista em DQ)

O que fazer? A quem recorrer quando o que não se entende bate forte e são apresentados anestésicos para questões que atormentam? E quando o que atormenta está no entorno agindo como reforçador de tendências comportamentais (os populares “gatilhos”), oferecendo apenas um mergulho mais profundo sem perspectivas que vão além do aqui e agora, o momento, a sensação, a substância? Essas e outras questões contemplam o termo correspondente à transferência, o pedido sem ecos acolhido de prontos, completa ‘descortinacão’ da súplica. Este “pedido de ajuda surge quando a droga falha em sua função de alívio ou de indutor de bem-estar; ou seja; quando a substância deixa de responder a todas as perguntas e de evitar situações difíceis e angustiantes” (COSTI; KRAHL, 2013, p.06, apud CHAVES, 2006, p. 121). Que seja plena contemplação de si mesmo diante do espelho, é preciso entender o que ele reflete, elaborar e responder questões que tirem do outro o poder da resolução das próprias perguntas. Como não existem respostam prontas nem soluções mágicas, é preciso que se tenha repertório, capacidade de olhar questões mesmas com um prisma de possiblidades não anteriormente cogitadas.

Por vezes, o vínculo inicial em contexto clínico é algo extremamente frágil. Estabelecer um raport terapeuticamente produtivo é vital para o andamento ótimo no que breve se revela como a busca pela abstinência, é preciso sensibilidade e tato para não se portar em posição de autoridade ou preconceito. Não raramente “o toxicômano entende que só ele detém o saber da experiência de drogar-se. Nesse sentido, não faz suposição ao saber do outro, que seria o ponto de partida para a possibilidade de vínculo transferencial” (COSTI; KRAHL 2013, p. 06) iniciando, assim, mudanças iniciais para se mudar a relação de dependência com a droga. O que se busca é um reencontro rumo à própria subjetividade.

Alguns autores destacam que o vínculo inicial é extremamente frágil devido à negação e onipotência do abuso de drogas. Nesse sentido, observou-se entre os autores que o pedido de ajuda surge quando a droga falha em sua função de alívio ou de indutor de bem-estar, ou seja, quando a substância deixa de responder a todas as perguntas e de evitar situações difíceis e angustiantes. Nesse momento, é unânime o que os autores referem sobre uma posição de ambivalência entre o desejo por usar a droga e a vontade de parar. Indicando uma expectativa ilusória, frente ao terapeuta, de voltar ao momento em que não usava a droga ou que a controlava como sendo então a solução perfeita de seus problemas (COSTI; KRAHL 2013, p. 23).

“Se o terapeuta aceitar esta posição, entrará no jogo do paciente, e assim travará uma luta imaginária para saber quem tem razão, quem é o mais forte, a droga ou o terapeuta, a droga ou a instituição, ficando, assim, como espectador desta luta” (COSTI; KRAHL 2013, p. 08, apud CHAVES, 2006). Não raramente isso acontece quando o terapeuta é posto como detentor de um “poder”, fazendo com que ele incorra em ato contratransferencial. Na transferência, um afeto é deslocado de uma representação para outra, que permite que os sentimentos, desejos e as fantasias reprimidas ou recalcadas venham à tona (COSTI; KRAHL 2013, p.08); logo, é preciso que o terapeuta não se perca, é preciso estabelecer vínculos que sejam produtivos e que tenham como foco ressignificação das causas e questões do seu paciente/cliente e não das do terapeuta que atua no processo psicoterápico. “Quanto às questões técnicas, diversos autores descrevem que a contratransferência com o dependente químico é semelhante àquela que se experimenta com pacientes psicóticos, provocando reações de intensa frustração, ódio ou desesperança, devido às frequentes recaídas” (KESSLER et al., 2003, p.05).

Nesse momento de busca por tratamento, é necessário observar como este paciente chega, pois nessa etapa é comum surgirem diversas barreiras, como acesso ao profissional ou serviço, estrutura familiar apoiadora, resistências individuais, tentativas anteriores de tratamento fracassadas, condições de saúde do indivíduo, características de sua personalidade, tempo de uso da substância, entre outras que interferem diretamente no processo de adesão ao tratamento proposto e também na fase posterior de reabilitação social (COSTI; KRAHL, 2013, p. 05, apud FONTANELLA; TURATO 2010, p.05)

Mesmo que a utilização de uma droga tenha como efeito direto o prazer, trará outras consequências não tão positivas que fazem que seja criado um dilema quanto à repetição deste comportamento, sendo justamente este espaço entre o desejo e sua realização um dos focos terapêuticos na área da dependência química (ARAUJO et al, 2008, p.05). Ao se irem descortinando questões e contextos que desembocaram na dependência como fim terapeuta e paciente, vão trazendo à luz questões antes imersas em subjetividade, em que a inconsciência dos atos e impulsos movidos pelo desejo incontrolável do prazer imediato ditavam vontades e compulsões. Entre um passo e outro, vem à tona questões transferenciais em que são sutis as formas com que o paciente vai transformando o analista em um objeto inanimado, a ser usado nos momentos de necessidade. Ele explica que é importante que o terapeuta perceba esse tipo de relação para poder revertê-la” (KESSLER et al, 2003, p.05). Este é o momento quando o terapeuta age para trazer o paciente para o contexto onde este realmente se encontra, tornando-o protagonista e não mero expectador. Caso não o faça, o “analista pode ser requisitado a preencher a falta ou até mesmo poderá ser acusado de não poder fazê-lo, não ser bom o suficiente para isso ou para aquilo” (VENOSA, 2011, p. 07, apud BRASILIANO, 1997, p. 235).

Outra característica do vínculo transferencial observada é do tipo que o toxicômano coloca o terapeuta em uma posição superegóica, de quem vai tirá-lo da dependência das drogas e intermediar através de uma fiscalização e um julgamento, posição ocupada geralmente pelos membros da família do toxicômano e transferida, por identificação projetiva, para o analista. Este fato, de colocar o terapeuta como um juiz, reflete sua dificuldade na relação com a lei de lidar com limites que esta impõe. Porém, se o terapeuta ao invés de incorporar este papel, pudesse então promover uma reflexão sobre seus próprios atos, convocando o paciente a participar de seu próprio destino, poderia evidenciar que ele é responsável pela sua trajetória, segue então ajudá-lo a questionar sobre a posição atualmente ocupada em relação à droga. É importante que o terapeuta nesse ponto, através da função analítica se coloque ao lado do paciente, não rivalizando ou ditando o certo e o errado, mas sim junto com o paciente crie um espaço de fala sobre seus pensamentos, sentimentos e atos em relação ao uso de drogas (COSTI; KRAHL, 2013, p. 25).

Na transferência, um afeto é deslocado de uma representação para outra. Esse deslocamento permite que os sentimentos, os desejos e as fantasias reprimidas ou recalcadas venham à tona (VENOSA, 2011, p. 04) clarificando questões que atuaram como sabotadoras do processo. Ao reprimir, o paciente rejeita representações, ideias, pensamentos, mesmo lembranças e desejos. Estabelece um processo de negação inconsciente impossibilitando que qualquer ponto de vista, ou forma de pensar que distingue da dele própria, tenha validade e ganhe relevância em termos de significado. É preciso que se tenha abertura que só é possível com uma relação de confiança onde a transferência atua como aliada no processo de cura/descoberta do indivíduo.

Analisando todos os aportes teóricos referentes a este construto, percebe-se o quanto o receio de avaliá-lo, de maneira fidedigna, pode atrapalhar o terapeuta na clínica. Por ser um estado subjetivo, a avaliação que o próprio sujeito tem de seu desejo, independentemente de estarem envolvidos processos cognitivos nem sempre conscientes, ainda é um instrumento muito valioso para orientar o tratamento. É importante ressaltar que o tratamento de dependentes químicos, em função das particularidades individuais, exige que terapeuta e cliente construam, juntos, o melhor projeto terapêutico e elejam as técnicas mais adequadas para cada caso, utilizando sempre a criatividade desta dupla ao pensar nas soluções para os dilemas da prática clínica (ARAUJO et al., 2008, p. 06).

No fenômeno dependência química o sujeito vai buscar na droga um reencontro com o objeto perdido (VENOSA, 2011, p. 08, apud BETARELLO, 2000, p. 360), um self oculto em algum lugar. Todo mergulho nos porões do EU será uma busca por si mesmo, cessará quando este for íntegro, único, entenda de forma clara os próprios processos de modo que esse aprimoramento seja constante, um fluir que não seja disfuncional, que seja salutar em suas instâncias.

Referências:

ARAÚJO, Renata Brasil et al. Craving e Dependência Química: Conceito, Avaliação e Tratamento. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) 2008, vol.57, p.57-63. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0047-20852008000100011&lng=en&nrm=iso. Acessado em: 07/03/2021.

COSTI, Michele Toniazzo; KRAHL, Simone. O Fenômeno Transferencial na Clínica da Dependência Química. Contemporânea – Psicanálise e Transdisciplinaridade, Porto Alegre, n.14, jan/dez. 2013. Disponível em: http://www.revistacontemporanea.org.br/revistacontemporaneaanterior/site/wp-content/artigos/edicao14/13_artigos_fenomeno_transferencial_Michele_Costi.pdf. Acessado em: 07/03/2021

KESSLER, Felix et al. Psicodinâmica do adolescente envolvido com drogas. Rev. psiquiatr. Rio Grande do Sul. 2003, vol.25. p.33-41. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-81082003000400005&lng=en&nrm=iso. Acessado em: 07/03/2021.

VENOSA, Priscila de Azevedo e Souza. Grupos Psicoterapêuticos de Mulheres Dependentes Químicas: Questões de Gênero Implicadas no Tratamento. Revista SPAGESP. 2011, vol.12, p. 56-65. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-29702011000100007&lng=pt&nrm=iso. Acessado em 07/03/2021.

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