O uso recreativo de drogas na adolescência

A adolescência, por si só, é repleta de conflitos, associados à explosão hormonal e à construção da própria identidade, ambos geradores de angústias e ansiedades, medos e inseguranças; um processo singular e complexo.
A adolescência é conhecida, segundo a teoria piagetina, como o período das “Operações Formais”, em que o sujeito se torna capaz de realizar operações no plano das ideias e de tirar conclusões através da formação de hipóteses, compreendendo, gradativamente, que “a função da reflexão não é contradizer, porém, se adiantar e interpretar a experiência” (SILVA; VIANA; CARNEIRO; 2011, p.4).


A adolescência é caracterizada pela fase que vem depois da infância e antes da juventude. Este período começa por volta dos doze anos e termina por volta dos dezoito. É um período em que o indivíduo sente prazer em manifestar seus gostos e preferências de forma exagerada. É uma fase cheia de questionamento e instabilidade, que se caracteriza por uma imensa busca de si mesmo e da própia identidade; os padrões estabelecidos são questionados, bem como criticadas todas escolhas de vida feitas pelos pais, buscando assim a liberdade e a auto-afirmação. (IBID, 2011, p. 6)

Uso recreativo de drogas é definido como o uso de frequência esporádica e em ambientes de lazer e de entretenimento. Tal uso é considerado como uma forma de “relaxamento”, e pessoas que têm (ou mantêm) este hábito não se consideram “viciadas”.
Entretanto, é sabido que o Sistema Nervoso Central (SNC) é a central que viabiliza a aprendizagem e o seu desenvolvimento e que Substâncias Psicoativas (SPA’s) são aquelas que atuam sobre o nosso cérebro, sendo capazes de alterar, de alguma maneira, o nosso psiquismo ou o nosso funcionamento cerebral. E que nem todo uso é patológico ou problemático; contudo, nem mesmo o uso ocasional (ou recreativo) está isento de riscos.


Sendo assim, é preciso refletir diante do seguinte fato: usuários se tornam dependentes, quando suas vidas passam a ser controladas pelas drogas, passando a agir de forma impulsiva e repetitiva em relação ao uso. As drogas são responsáveis por desencadear uma doença biopsicossocial – espiritual e de aprendizagem, por meio da pré-disposição genética (não necessariamente hereditária), do meio familiar e/ou social, atualmente conhecida como Transtorno de Uso de Substâncias (TUS), mais comumente conhecida como Adicção. Já a adolescência, segundo SOARES (et al. 2020, p.5), é uma fase da vida que representa, ao mesmo tempo, uma transição e uma ruptura e influencia diretamente o desenvolvimento do sujeito em seus aspectos biológico, psicológico, emocional e social; provocando uma sensação dolorosa e de preocupação. Principalmente ao considerar que alguns motivos que levam os jovens a buscar e a conhecer os inegáveis “prazeres” oferecidos pelo uso das drogas, como as atitudes impulsivas, de curiosidade e da busca por status também são características comuns neste período.


Torna-se importante ressaltar que, embora tais prazeres sejam momentâneos, as conseqüências decorrentes desta busca são devastadoras. O que, a princípio, pode ser feito com uma intenção (verdadeira) recreativa, o faz evoluir, gradativamente, para o uso, abuso e dependência.
Curiosidade, vivenciar novas emoções, driblar a timidez e/ou insegurança, “esquecer” problemas, ser ou fazer parte de um grupo, questões que envolvem o contexto familiar, somados à explosão hormonal típica desta fase são fatores que influenciam as razões para que os adolescentes busquem as drogas e sintam-se seduzidos por elas. Sendo assim, é importante frisar que a dependência química é um transtorno que afeta negativa e diretamente o sistema responsável pela motivação do indivíduo; e “como qualquer outro transtorno específico de um órgão ou sistema, primeiro deve-se entender o funcionamento normal desse órgão ou sistema para entender a disfunção” (OMS, 2006, p.13). O consumo de substâncias químicas nocivas implica danos consideráveis ao funcionamento deste órgão, resultando em disfunções comportamentais, associadas ao empobrecimento de vínculos afetivos e do convívio social.


Assim sendo, o uso de drogas, na adolescência, seja ele recreativo ou não, certamente resultará negativamente em seu desenvolvimento.
Perceber o adolescente não apenas em seu nível individual, mas também em suas relações, interações grupais e dinâmicas interacionais contribuem para que o processo de mudança de comportamento obtido através da experiência construída se perfaça.

REFERÊNCIAS:
SILVA, P, S, M, da. ; VIANA, M, N.; CARNEIRO, S, N, V. O desenvolvimento da adolescência na teoria de Piaget. Psicologia.pt, p. 1-13, dez/ 2011. Disponível em: https://www.psicologia.pt/artigos/textos/TL0250.pdf.
SOARES, F, R, R.et al . Motivações do consumo de drogas entre adolescentes: implicações para o cuidado clínico de enfermagem. Rev. esc. enferm. USP, São Paulo , v. 54, e03566, p. 1-7, jun/ 2020. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0080-62342020000100600&lng=en&nrm=iso.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Neurociências de consumo de substâncias psicoativas: Resumo. Genebra. 2004. Disponível em: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/42666/9788572416665_por.pdf?sequence=2&isAllowed=y.

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