Que tipo de crenças acompanham pensamentos ligados à dependência química?
Existe um caminho para o sucesso desse tratamento? Receita de bolo? O que é mais eficaz? Tem solução?
Ao enveredar por essas reflexões automaticamente me coloco a pensar sobre meu caminho por essa estrada.


Aproveito para me apresentar: sou Mariana Curi, psicóloga. Trabalho em uma instituição e em consultório particular. Não estava em meus planos trabalhar nessa área.

Iniciei minha carreira com uma certeza: trabalharia com sofrimento humano, talvez seja óbvio para quem escolhe psicologia, mas o que havia escolhido especificamente foi oncologia. Trabalhar com pacientes com câncer e seus familiares, a finitude, com a ressignificação de momentos, fases, vivências… e perdas.

Não fui eu que escolhi a dependência química, inclusive não acho incomum as pessoas sentirem-se escolhidas por essa área de atuação. Fui contratada pelo Bairral para trabalhar com saúde mental, mas a dependência química veio seis meses depois quando fui trabalhar na Comunidade Terapêutica Rural Santa Carlota. Um desafio e tanto para mim, que nunca havia tido contato com aquela demanda, mas ao mesmo tempo um presente em minha vida. Poder iniciar minha estrada num lugar tão rico, rodeada de pessoas que entendem do assunto, que sabiam o que estavam fazendo e dispostas a me ensinar.

E aqui começo minha reflexão sobre “o que serve para cada um”.

Iniciar a caminhada pela CT foi uma experiência sem igual que me mostrou o lado duro dessa vivência, mas com a realidade de quem escolhe voluntariamente estar ali, apesar de entender que esse desejo se modifica ao longo do caminho, pois como humanos tendemos também a evitar maiores dificuldades ou sofrimento, e estar internado é um grande desafio.

Escolher tratar-se é um grande passo, abrir mão, distanciar-se para aproximar-se de si mesmo. Bonito pensar nisso, não? Admirável eu diria, mas árduo.

Estar ali vivenciando processos voluntários de recuperação sempre me fez pensar sobre a grande responsabilidade daquelas pessoas. Quanto maior a liberdade, maior a responsabilidade. Optar em permanecer me parece uma grande decisão que é tomada todos os dias, “só por hoje”, e funciona para muitas pessoas.

Aquela história de que é necessário querer é, em parte, verdadeira, mas paramos para pensar sobre como chegar nesse “querer”? Será que só existe um caminho? Será que apenas pela voluntariedade isso é possível?

Hoje, não trabalho mais na CT Santa Carlota, mas continuo fazendo parte da mesma família. Coordeno os programas de transtorno por uso de substâncias do Bairral e ali lido com uma realidade diferente daquela que fui apresentada no início de minha caminhada.

Lido ainda com a voluntariedade, mas lido também com a involuntariedade, com a estrada de quem, talvez, ainda não tenha consciência de suas necessidades, com quem ainda minimiza as consequências do abuso de substâncias de uma maneira que dificulta o entendimento desse processo de renascimento e, mesmo assim, pode encontrar um caminho nessa dura estrada de incertezas.

O intuito da nossa conversa inicial é podermos pensar sobre o caminho de cada um.

Não existe um meio certo de fazer recuperação, existe o que serve para cada indivíduo. Existem, sim, alguns pilares para essa caminhada, mas aqui falamos sobre a estrada. Alguns se conscientizarão de suas perdas, estarão cansados, orientados sobre suas necessidades e possibilidades e poderão buscar um caminho, talvez ambulatoriamente, talvez com acompanhamento terapêutico mais próximo, ou uma internação voluntária. Outros não conseguirão optar, em um primeiro momento, apesar de toda perda, de toda dor, de todo sofrimento e, talvez, essa conscientização possa se dar ao longo de um processo que inicialmente não foi escolha do indivíduo, mas pode auxiliá-lo nesse florescimento.

Hoje, olhando para minha estrada, penso sobre a similaridade entre minha primeira escolha, que foi a oncologia, e a minha segunda escolha que foi a dependência química, e que se tornou uma escolha de vida de forma natural. Penso sobre a possibilidade de trabalhar em uma área que auxilia as pessoas a significarem novamente momentos, trajetórias, ver sentido em sua existência, mas, principalmente, um trabalho que me faz pensar sobre a esperança.

O caminho é de cada um, não chegamos onde estamos, dependentes químicos ou não, pela mesma estrada, mas podemos sempre semear aquilo que acreditamos e colher aquilo que almejamos.

Gosto da frase “Florescer exige passar por todas as estações” (Ita Portugal). Sim, faz sentido para mim e faz sentido quando pensamos na recuperação. As estações nem sempre são vivenciadas da mesma forma, mas são necessárias para que possamos entender o nosso lugar no mundo, nossas próprias necessidades e nosso processo de florescimento… ele é único!


Agradeço mais uma oportunidade de tentar auxiliar na semeadura e colheita de conhecimentos e vivências que juntos partilharemos nessa estrada.

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