Para os mais novos também acompanharem o meu raciocínio, “The Wall” é o nome do álbum duplo da banda Pink Floyd, e se não me falhe a memória, foi o disco mais escutado no mundo em 1985. Obs: na época não existia CD, apenas disco de vinil.

Pois bem, lembro que a minha primeira experiência com o Pink Floyd foi quando um colega me emprestou 2 fitas K7 (peça de museu) e fiquei 2 semanas, de forma quase que ininterrupta, ouvindo aquelas músicas no meu Walkman Philips amarelo (aff…o que é isto tio?). Ali se iniciava a minha fecunda experiência com o álbum The Wall do Pink Floyd.

Até então não conhecia estes “caras”. Com o tempo fui conhecendo a discografia da banda até chegar, do meu ponto de vista, ao disco mais “psicodélico” deles, o Ummagumma de 1969.

Voltando ao “The Wall”, foi um álbum emblemático que também virou filme. Não lembro ao certo em que ano o assisti pela primeira vez, mas recordo do impacto que causou em mim na época. A cena do moedor de carne humana foi a que mais me chocou na ocasião.

Na época assimilei como ideia central a crítica sobre a maneira como a imposição de regras, ideologias e de determinados valores morais podem ser instrumentos de escravização das mentes das pessoas, e como uma criança pode, ao longo da vida, se tornar uma vítima “do sistema”. Talvez esta experiência com o filme tenha me despertado, ou até mesmo potencializado, o desejo de romper as correntes morais, invisíveis e cruéis que causavam dor, sofrimento e condicionamentos mentais limitantes sobre eu mesmo.

Posso ter sido influenciado por aquele encontro muito mais do que racionalmente pensava. Eu era um adolescente em plena fase de mudança para o período jovem adulto. Momento de transição nem sempre saudável, principalmente se o adolescente não tiver construído uma identidade próxima do que deveria caracterizar sua singularidade como indivíduo pelo resto de sua vida.

Associado ao contexto acima descrito, também incluo ainfluência das drogas neste período da minha vida e o quanto isto acabou repercutindo na construção de modelos mentais que desorganizaram todas as minhas tentativas posteriores de encontrar-me comigo mesmo.

Voltando ao objeto deste texto, o filme “The Wall”, no dia 10 de outubro de 2020, tive a oportunidade de rever o filme. Zapeando na TV, encontrei-o sem querer no Canal Biz.

Sabe quando bate aquela vontade de assistir de novo algo que já viu várias vezes? Estranho, né? Pois bem, mais uma vez senti este desejo…

No decorrer do filme fui me aprofundando nas cenas, nas falas, nas letras, na interpretação do ator, em detalhes ainda não percebidos no filme, na sonoridade, na complexidade da produção desta obra.

Momentos de ópera, orquestra, coral, êxtase da oralidade, vozes tristes, atormentadas, pessoas terríveis, seres humanos desumanizados, doentes mentais, crianças inocentes, adultos maquiavélicos, homens comuns, entorpecimento da vida.

É incrível como podemos ter infinitas maneiras de perceber a mesma cena, a mesma música, a mesma letra. Temos a possibilidade de estar em constante mudança, em contínua abertura para o novo, em movimento para se aperfeiçoar, para ampliar o conhecimento, a compreensão da vida, refinar as experiências sensoriais, ajustar a rota do caminho a ser seguido em busca do destino desejado.

Cerca de três décadas após o meu primeiro contato com o filme “The Wall”, ontem revisitei o meu passado e percorri mentalmente a minha história. Pensei em quem sou hoje e de que forma estabeleço a minha relação com o mundo e com as pessoas. Pensei nas pessoas e na forma como elas realizam este mesmo processo. Então, de imediato, surgem questões, dúvidas e provocações mentais em relação às pessoas:

Será que sofreram ou sofrem, mas conseguem respostas?

Será que estão conseguindo suas realizações?

E quem não consegue se libertar das correntes morais invisíveis e cruéis, como estão?

Quais recursos emocionais, cognitivos e intelectuais têm para manterem-se estáveis?

Estão encarceradas em seus tormentos mentais?

Será que sabem que é possível libertarem-se de seus tormentos e crenças limitantes?

Será que sabem que podem ter se transformado em escravos de modelos mentais disfuncionais que as condicionaram a não serem o que de fato poderiam ser?

A mente não se aquieta. Os insights borbulham e então o filme me impacta novamente com algumas reflexões que abaixo coloco como perguntas:
Qual muro ainda está em pé e que impede a pessoa de ser ela mesma?

Qual o muro ainda existe que impede a pessoa de ver o que existe por trás dele?

Quem construiu o muro? A própria pessoa ou o mundo a encarcerou atrás dele?

Este muro protege ou aliena?

Este muro é o medo?

Acredito que, assim como no filme, podemos e devemos explodir os muros que ainda nos impedem de sermos melhores seres humanos.

Construir pontes, ao invés de erguer muros, é a forma mais produtiva mas não menos trabalhosa para estabelecer novos vínculos, experimentar novas vivências, aprender novas maneiras de adaptar-se às demandas da vida e, assim, amadurecer para tornar-se uma pessoa cada vez melhor.

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1 comentário em “O Muro”

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    Excelente ponto de vista, ao meu ver o indivíduo desde o dia que nasce até o dia que morre é forçado a seguir uma doutrina, uma religião, uma norma de conduta que impuseram a ele seja pela mãe e pai, sociedade ou religião. É muito difícil se desprender de dogmas e crenças pois a maioria, se não todas foram implantadas por terceiros, culturas ou ensinamentos exterior. O que me faz sempre me questionar, o quão influenciados e influenciadores somos e o quão somos apenas nós mesmo.

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