Nesta época de ameaça à vida pelo Coronavírus, há uma preocupação constante com as formas de prevenção do seu contágio e, entre elas, está a evitação de agrupamentos humanos. Medidas foram tomadas para proteger à população de uma forma geral, porém não parece ter sido dada a devida atenção aos dependentes químicos da Cracolândia, os quais parecem, ao olhar dos governantes, imunes a esse vírus mortal. Um dos motivos para isso, com certeza, é o fato do poder público não saber como lidar com esta situação complexa, para a qual as políticas já variaram da negligência total à internação compulsória.

Existe a necessidade de desfazer a aglomeração social na Cracolândia para que se possa proteger minimamente os seus frequentadores e as pessoas que circulam nesta área, porém fica, naqueles que se preocupam com medidas meramente higienistas, a dúvida do quê e de como isto poderia ser feito. Todos seriam internados compulsoriamente? Seriam simplesmente expulsos de lá? Como proporcionar que essas pessoas carentes em termos sociais e econômicos utilizem, de fato, as medidas de proteção ao Coronavírus? Alguém lhes cobraria que usassem máscaras? Caso a resposta seja sim, como isso seria possível? E o álcool gel? Existe possibilidade de ele ser realmente utilizado na Cracolândia? São perguntas complexas e que não sei se podem ser respondidas pelos profissionais da área da saúde ou pelos políticos que dizem se preocupar com essa parcela da população. Claro que as estratégias de redução de danos devem ser utilizadas, mas em uma situação atípica de ameaça real à vida como esta imposta pela COVID-19, isto é o suficiente?

Acredito que qualquer medida que realmente pretenda ser de ajuda nesse sentido não pode ser feita de forma generalizada, dada a pluralidade desse grupo que “vive” na rua. Qualquer intervenção que comece com a palavra “todos” parece – e intervenções anteriores provaram – estar fadada ao fracasso: “Todos” devem internar, “todos” devem ser expulsos de lá, etc… Seria preciso que fosse realizada uma ação individualizada, que pudesse ser efetiva além da pandemia!

Quem são essas pessoas – e não quem é esse grupo, pois isso já foi pesquisado -, quais são seus nomes, suas necessidades e como gostariam de ser ajudadas deveriam ser as primeiras perguntas a serem respondidas para se elaborar um plano de ação. Apesar do desconforto que elas causam em todos nós, pois demonstram a nossa incompetência em respeitar outro ser humano nos seus direitos fundamentais, algo tem que ser feito. Precisamos lembrar que elas, independente de serem ignoradas pelas autoridades públicas, têm um nome e uma história. Precisamos lembrar que cada uma delas, independente de quem for, tem o mesmo valor e direito de ser protegida que eu ou você.

Parceiros

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *