Os transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas são problemas graves enfrentados pela nossa sociedade nos dias atuais, devendo ser tratados com uma questão de saúde pública, uma vez que envolve uma problemática muito maior que o mero tratamento clínico dos usuários.

Nesse contexto, o consumo abusivo de cocaína/crack tem sido relacionado a diversos problemas de ordem física, psiquiátrica e social. Estima-se que a cocaína e o crack são consumidas por 0,3% da população mundial correspondendo a aproximadamente 20 milhões de pessoas, estando a maior parte desses usuários, cerca de 70%, concentrados nas Américas.

As estimativas na América do Sul ainda são frágeis, contudo, estudo brasileiro mostrou que o Brasil é o país que mais consome crack no mundo, com resultado estimado de aproximadamente 370 mil usuários. Nas maiores cidades do Brasil, o uso de cocaína ao longo da vida atinge 2.9% dos indivíduos e o de crack, 0,7%, constituindo-se aquela na terceira substância ilícita mais utilizada. Em âmbito nacional, o número de pessoas que fazem uso do crack e, paralelamente, os efeitos negativos decorrentes desse uso se ampliaram, fazendo com que, hoje, ele ocupe uma posição de destaque entre os problemas de saúde pública do país. Isso se deve em parte ao fato das consequências desse uso atingirem uma fração potencialmente produtiva da população e por estar associado, ao aumento da criminalidade, da violência, do comportamento sexual de risco e dos custos elevados com o tratamento, tanto ambulatorial como hospitalar.

Atualmente, um dos maiores desafios no tratamento da dependência de cocaína/crack é lidar com os aspectos vinculados ao uso que podem levar à recaída, sendo a fissura pela droga, um dos fatores precipitadores desse comportamento.

A “fissura” ou “craving” corresponde ao desejo intenso de consumir uma substância psicoativa, o qual pode surgir, por exemplo, tanto na fase de consumo quanto na de abstinência de cocaína/crack. Nesse sentido, percebe-se que tal impulso está agregado às expectativas em torno dos resultados de utilização das referidas drogas e figura como um fator potencializador para a ocorrência de lapsos, para amplificação do uso compulsivo ou até mesmo para desencadear recaídas.

Por outro lado, o exercício aeróbio (EA) é definido como a habilidade de realizar movimentos físicos por períodos de longa duração com a utilização predominante dos mecanismos de degradação completa dos substratos energéticos a partir da utilização predominante do oxigênio.

Estudos têm demonstrado que o EA melhora o condicionamento físico, o bem-estar psicológico e corpóreo de indivíduos saudáveis, assim como de pessoas que apresentam problemas de saúde. Por exemplo, o exercício físico é comprovadamente benéfico para a redução do risco de doenças artério-coronarianas (DAC), acidente vascular cerebral (AVC) e certos tipos de câncer (Ca).

De modo análogo, existem evidências satisfatórias para concluir que a realização regular de exercícios aeróbios de intensidade moderada à intensa está associada a ganhos significativos na promoção da saúde mental. Além disso, há alguns estudos que demonstram a importância desse tipo de exercício como uma ferramenta para auxiliar o tratamento da dependência de álcool e na diminuição da fissura por nicotina.

Além disso, um programa de treinamento aeróbio para controle da fissura pode gerar maior comprometimento dos pacientes dependentes de cocaína/crack, tendendo a aumentar as chances de sucesso no enfrentamento da fissura e ampliar o leque de atuação em saúde dos profissionais de educação física mediante a elaboração de programas de treinamento físico específicos para essa morbidade.

Portanto, a neuroproteção proporcionada pelo exercício aeróbio no que diz respeito à redução dos danos em estruturas cerebrais decorrentes da dependência química, mostra que o EA pode ser útil a indivíduos que apresentam um estado de fissura decorrente do uso de drogas psicoativas, como a cocaína e o crack.

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2 comentários em “O exercício físico no tratamento da dependência de cocaína e crack”

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