É muito comum, em nosso meio cultural e religioso, quando nos deparamos com a palavra “amor”, lembrarmo-nos do amor incondicional dos pais, com plenitude, compaixão, que vem de modo ilimitado, sem cobranças, total, sem interesse e pleno. Todos conhecem a expressão “amor de mãe” – eu prefiro “amor dos pais” – que caracteriza esse sentimento que existe, independentemente das circunstâncias. Amor dos pais não tem restrições, limitações ou obrigações. Ele existe e não precisa de explicações. É incondicional! “Amo meu filho e nada no mundo vai apagar esse sentimento”, dizem os pais. “Amo e não preciso de razões para isso”. “Não importa se há retorno desse sentimento ou não”…

               Esse amor incondicional, porém, é colocado à prova quando, por fatores comportamentais, gerados ou não por drogas, os pais são humilhados, desprezados, agredidos por seus entes queridos e se sentem magoados, ressentidos, com raiva e ódio por não estarem recebendo o amor que dão. Como se torna difícil amar sob essas circunstâncias, como fica sem chão a vida, com tanto amor e tanta mágoa ao mesmo tempo, dentro do mesmo coração. Como é aflita a situação de não saber o que fazer com o amor incondicional nessa hora…Ele se mistura a outros sentimentos, como os de vergonha, decepção, impotência, culpa (ah, a culpa!) e ficamos perdidos, sem entender onde foi que nos perdemos de nós mesmos, a partir do conceito de amor como uma relação de cuidado mútuo. “Onde foi parar o outro lado da relação?”.

              Nessa hora – e assim o foi para mim -, aparece uma luz no fim do túnel (desculpem o lugar comum):  a proposta do Amor-Exigente, que me trouxe o salvador paradoxo de que O MEU AMOR INCONDICIONAL NÃO PODE ACEITAR TUDO. E essa incondicionalidade, então, é entendida de um modo muito mais amplo, porque ela vai ALÉM do simples sentimento de “coração cheio de faíscas de amor” que vão em direção ao meu querido, mas se instala como um conjunto de AÇÕES que tenho que resolver comigo mesma para que se comprove e se concretize esse amor, para que eu o ajude, nesse cuidado, a ser melhor para ele mesmo, a ser feliz sem as muletas das drogas ou máscaras comportamentais. Não acredito que Cristo amasse menos os vendilhões do templo quando os fustigou.

             O 12º Princípio da Proposta do Amor-Exigente, que diz que “O amor, com respeito, sem egoísmo, sem comodismo, é um amor que orienta, educa, exige”, vem como um farol em noite de tempestade, a iluminar esse emaranhado de sentimentos que teimam em existir em nosso coração. Ele nos ajuda a perceber que esse amor, como diz Mara Sílvia Carvalho de Menezes, cofundadora do AE no Brasil, “…é um grande desafio. É uma decisão. Deixa de ser um sentimento para ser uma opção de vida”.

              A imagem que me vem à mente, nesse princípio, é a de “arregaçar as mangas”, a de “colocar-se em prontidão” para o trabalho, que temos de fazer primeiramente conosco e, depois, com o outro. Para isso, gostaria de ressaltar alguns pontos, entre muitos outros.

Perdão: temos de nos perdoar, de tirar as nossas culpas, para podermos agir e enfrentar os desafios;

Coragem: temos de nos livrar de nosso lixo emocional (raiva, medos, vergonha, mágoas…), que impede o amor incondicional de se manifestar. O grupo nos ajuda muito nesse processo. Nossas partilhas e metas têm de objetivar essa faxina;

Autoridade: temos de exercer, com autoridade, nosso papel de pais, sabendo o peso de nosso “não” e de nosso “sim”. O grupo também nos apoia nessa caminhada.

Comprometimento: temos de compreender que nossas ações se envolvem com as necessidades de nossos filhos e não com os seus desejos e satisfações pontuais e gratuitos. Temos de vê-los, no futuro, como seres bons, éticos e cidadãos e a base dessa construção é a nossa ação de amor, ou melhor, nosso AMOR-AÇÃO, que age, no presente, vislumbrando o cenário em que nossos filhos serão melhores para eles mesmos, no amanhã, a partir de suas escolhas.

            O AMOR, no Amor-Exigente, me ensinou que esse amor paradoxal, incondicional que NÃO aceita tudo, é um Amor-Inteligente, em que a razão e a emoção caminham juntas, sustentando a minha decisão de ver mais além do horizonte costumeiro do que eu julgava existir.

            E ver assim, para mim, é ter “olhos de Deus”. E isso me basta. Minha parte estou fazendo. Não é fácil, mas não é impossível.

Maria Izabel de Oliveira Massoni

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