Quem era adolescente no início da década de 1980 e sofreu ao saber que nunca mais poderia fazer sexo sem camisinha sem se arriscar a contrair o vírus do HIV sabe o quanto a percepção de risco modifica um determinado comportamento. Perder ídolos como Cazuza, Freddie Mercury e tantos outros nos ensinou que não era mais possível subestimar o risco de não se proteger nas relações sexuais, de compartilhar drogas injetáveis, e de não ter programas de redução de danos. Hoje, com a evolução do tratamento do HIV/ AIDS, que tem se tornado, felizmente, uma doença crônica, observa-se um fenômeno inverso ao que vivemos no século passado e uma total desconsideração quanto à necessidade do uso de preservativos.

Essa diminuição da percepção de risco ocorre também em outras áreas como o consumo de drogas: quanto mais as leis são flexibilizadas e as pessoas consideram que este é um comportamento de baixo risco, maior tende a ser a sua frequência, e menos provável é que o mesmo venha acompanhado de métodos de proteção. Alguns acham que proibir não funciona, porém, uma liberação dissociada da oferta de informações baseadas em evidências é o extremo oposto disto, e é um reforçador desses comportamentos que trazem riscos à saúde e à vida.

E é, nesse contexto, que vemos, com surpresa, cantores, atores, políticos, e até mesmo juízes minimizando as consequências do uso da cannabis, como se a mesma não oferecesse riscos e, ainda por cima, que ela não fosse ilegal… Alguns vão dizer que não é a primeira e nem será a última vez que algo assim acontece. Outros defenderão que existem interesses maiores por trás disso… O fato é que já se encontra na Câmara dos Deputados, para ser votada, uma Minuta de Substitutivo que flexibiliza o cultivo, o processamento, a pesquisa, a produção, a industrialização e a comercialização de produtos à base de cannabis. Essa proposta de mudança na lei, sem dúvida alguma, é uma medida que visa criar um clima propicio para a legalização desta droga no Brasil. É importante lembrar que os países que legalizaram a cannabis tiveram como resultados, aumento no consumo desta substância, nas internações por episódios psicóticos, no número de acidentes de trânsito e nas taxas de violência, sem que houvesse, como é difundido pelos defensores desta causa, uma diminuição no tráfico de drogas.

Pois é, chegou o momento em que todos – mas todos mesmo – devemos refletir a respeito do tipo de sociedade no qual queremos viver e de que mensagem queremos passar quanto aos riscos de comportamentos que podem ser muito prejudiciais, tanto para a nossa, quanto para as próximas gerações. Caso contrário, em breve, seremos meras vítimas de interesses econômicos e das decisões de quem não parece se preocupar, nem um pouco, com a saúde e com a segurança da população.

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1 comentário em “Libera Geral!”

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    A matéria, escrita numa sequência lógica bem didática, capta nossa atenção para esses fatos que consomem tantas vidas.
    Penso que mais explanações seriam necessárias para tirar dúvidas que devem persistir, especialmente no público que tem visto o uso medicinal do canabis.
    Sugiro discussões em lives e/ ou outros artigos desse nível. Parabéns à Dra. Renata!

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