Filhos: 50% mãe, 50% pai

Se todo ser humano se origina a partir de um homem e de uma mulher, então, todos nós temos um pai e uma mãe. Independentemente de quem somos ou da família que nascemos, se conhecemos ou não nossos progenitores, somos a soma dos dois.
Muitas vezes, me deparo com pessoas adultas divididas, que não conseguem unir suas polaridades (pai e mãe) internamente e enfrentam muitas dificuldades por conta disso como, falta de foco profissional, dependência emocional nos relacionamentos, problemas para se desvincular da família de origem e por aí vai. Só para constar, esse impasse em reconhecer as figuras paterna e materna, assim como os desencadeamentos desse ‘não fazer’, tem um fundamento lógico e cientificamente comprovados nas obras de Bert Hellinger e Franz Ruppert.


Um forte propulsor da rejeição do pai e/ou da mãe pelo filho é a falta de compreensão sobre os lugares de direito. E, para entendermos melhor como isso funciona, devemos, primeiro, conhecer a Lei da Hierarquia. Essa lei pressupõe que todos que vieram antes de nós, prevalecem sobre nós. Mas, não se engane, não estou aqui apontando para relações abusivas, pelo contrário, refiro-me sobre a importância de se conectar com os nossos antepassados a fim de identificarmos e superarmos os traumas geracionais que herdamos, para recuperarmos a força da nossa família de origem e, com isso, nos sentirmos mais completos e livres para a vida, uma vida mais leve. Ao negarmos a nossa própria história, perdemos o sentimento de pertencimento que nos liga às pessoas, grupos e com a nossa própria identidade. Sentimo-nos sozinhos e sem propósitos vindouros. A importância de aceitarmos o outro como ele é, pois ele é como é, e seja esse “outro” quem for, nos facilita aceitarmos as partes mãe e pai.


Afinal, os pais nos precedem, pois nos passaram a vida. Eles podem não ser pais perfeitos, até porque isso não existe, e talvez tenham cometido muitas falhas, ou então você nem os conhece, porém, você não deve culpá-los pelo que deixaram de fazer. A culpa te aprisiona. É preciso compreender que eles só transmitiram aquilo que tinham e o que podiam naquele momento. Quando você deixa de julgar o seu pai e a sua mãe, você se liberta e se fortalece e, quando os reconhece em seus lugares de direito, você leva a força deles consigo aonde quer que você vá.
Portanto, cada um possui um papel vital dentro do sistema familiar. O filho não pode fazer o papel dos pais, os pais não podem ocupar o lugar do filho. Cada um tem funções e responsabilidades específicas.


Mas existe ainda uma outra dificuldade para o filho em assimilar pai e mãe no coração. Essa dificuldade vem da própria forma como o casal se relaciona. Pais que moram juntos ou não, e estabelecem uma relação pouco saudável, com distanciamento, negação, falta de diálogo e respeito, sendo que, um busca tomar o filho para si e tirá-lo do outro, causam muitas dores e abismos nas relações. Frases como, “você gosta mais de quem, do seu pai ou da sua mãe?”, são muito comuns. Porém, o que os pais pouco sabem ou ignoram é que esse comportamento acarreta muitas mazelas nos filhos que se veem na obrigação de escolher um dos lados para se sentir mais amado por este ou aquele. Isso é muito pesado e traumático para um filho. É necessário que os pais, parem de fazer isso com os seus filhos!
O filho precisa reconhecer dentro de si ambas as partes, pois se, desde a sua geração, ele é metade mãe e metade pai, negar isso o deixa com um sentimento de vazio interno muito grande, e, isso acarretará em seu futuro uma série de problemas. Ou mesmo ali na infância, enquanto o transtorno ocorre, é muito mais traumático.


A criança, quando colocada nessa posição dividida, muitas vezes, começa a desempenhar um papel que não é seu no sistema, o de salvar o casamento dos pais. O filho, por mais distante que seja do pai e/ou da mãe, ama os dois incondicionalmente, mesmo negando isso. Ele precisa se sentir vinculado a eles de alguma forma. Então, começa a chamar a atenção o tempo todo com travessuras e atos indeliberados, pois busca tirar o foco dos pais de sua relação doentia e conflituosa, se colocando à serviço deles por amor, amor cego.

Pai, mãe e filho. Essa palavra é para vocês. Libertem uns aos outros! Deixem essa vida de codependência emocional de lado! Filho, aceite seu pai e a sua mãe no coração! Pai, mãe, liberem seus filhos para a vida! Trabalhem as suas questões internas e tragam o saudável para o centro da vida familiar e pessoal. Eu sei que é difícil, mas é preciso. É urgente entrar em contato com os traumas, com algumas dores que debilitam profundamente o nosso ser para lançarmos um novo estatuto sobre elas em direção à ampliação da consciência e de uma vida mais responsável para com a nossa felicidade. Nunca é tarde demais.
(Ana Claudia de Carvalho, Terapeuta Sistêmica e Consteladora Familiar)

Referências:
HELLINGER, B. Ordens da ajuda/Bert Hellinger; tradução de Tsuyuko Jinno – Spelter-Patos de Minas: Atman, 2005.

RUPPERT, FRANZ. Simbiose e autonomia nos relacionamentos: o trauma da dependência e a busca da integração social/Franz Ruppert: tradução Newton de Araujo Queiros. – São Paulo: Cultrix, 2012.

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