Falando sobre recuperação…

Acredito no quão importante é para aqueles que amam o indivíduo que fez ou faz uso nocivo de substâncias psicoativas, respostas para perguntas do tipo: o que aconteceu com ela (e) para chegar nessa situação? Como uma pessoa, com um coração tão bom, faz isso consigo e com seus familiares? Por que não consegue parar? (…). As respostas podem ser encontradas durante o processo individual de recuperação (inclusive daqueles que fazem tais perguntas), na Neurociência, na Psicologia, na Psiquiatria e na Epigenética; já, a qualidade dessas respostas, bem como, o tempo que levará para obtê-las, dependem da energia e do interesse dedicado a este processo de busca.

“Não somos responsáveis por nossa doença, mas por nossa recuperação”, assim está escrito na literatura de uma irmandade anônima; o que, diga-se de passagem, é a mais pura verdade! Ser acometida (o) por esta doença, significa dizer que a vida deste ser humano, em termos gerais, está sendo controlada pelo uso de drogas de abuso; uma doença que é progressiva, incurável e que pode ser fatal, todavia, que pode ser retida e certamente, evitada.

Costumeiramente criamos expectativas, e elas são travessas, geralmente nos consomem de uma tal maneira, que nos deixam angustiadas, incapacitadas e com aquela sensação de perda; perda de algo que nem sabemos se poderíamos ter. É preciso encontrar uma forma para lidar com ela, em um nível de equilibrio, visto que, a expectativa também é importante para o funcionamento saudável do indivíduo em sua totalidade; desta forma, na tentativa de evitar o seu excesso, torna-se possível viver o só por hoje, um dia por vez. Tais habilidades também se tornam necessárias para lidar com outro sentimento, o de frustração; mas, não o veja de maneira tão negativa! Porque ele é importante para o nosso amadurecimento, e em um nível suportável, ele contribui com o desenvolvimento da capacidade de adiar a gratificação, o que é um fator fundamental para se conviver bem em sociedade; enquanto a esperança nos mantém vivos!

O processo de recuperação nos conduz gradativamente a busca pelo autoconhecimento, o que nos proporciona significativas mudanças em nossa maneira de pensar, de se comportar, de agir, de viver. Aceitar que perdemos o controle, ou que não se tem controle sobre o outro ser humano, permite que esta mudança ocorra a medida que o próprio indivíduo sente-se pronto; sentindo-se parte, tornando-se parte, sendo parte de algo que transcende expectativas e frustrações, pois, finalmente a sensação de estar, de fato, canalizando suas energias para as suas prioridades, está acontecendo.

Aceitar ajuda não é bem um mérito, mas o mínimo que se pode fazer quando se está perdido; o prefixo “des”, negativo, da palavra desenvolver, significa que o indivíduo, se desenvolve, a medida que ele sai de seu envolvimento; então, a arte de se contrariar, assim como, a arte do pare, escute, reflita e ore, se fazem necessárias, visto que, haverá momentos em que este indivíduo estará sozinho, pois sente-se assim, e nada o faz sentir-se diferente ou melhor… e vai existir medo, angústia, raiva, entre outros; então, finalmente compreendemos o verdadeiro significado da rendição… da fé em algo maior e mais forte do que a nossa doença; fé em algo que você simplesmente se apega para que quando você for sugado para aquele lugar escuro e frio, você possa sentir por dentro um afago, uma sensação de segurança, um empurrão, e então, respirar e seguir em frente, pois, estar limpo não significa estar em recuperação; mas viver em recuperação, implica, necessariamente, em permanecer limpo.

Karina Blum Tiengo

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