É PRECISO TER CORAGEM

Claudio, um homem de 58 anos, casado, 3 filhos e 6 netos, corretor de imóveis, ensino superior completo, dono de seu próprio negócio, introspectivo, chega à minha sala de atendimento buscando respostas. Me conta que seu problema é o uso de cocaína. Diz não saber por que ainda usa essa droga. Começou o uso na época da faculdade e hoje não consegue ver sentido em continuar usando. Mas não consegue deixar de usar. Conta que sua esposa acha que ele fica mais comunicativo sob efeito da droga e o incentiva. Os filhos o ameaçam de internação involuntária. Diz que não usa todos os dias e de forma abusiva, mas que se sente culpado desde o momento em que compra a droga até o efeito dela passar. Em seu entendimento precisa de medicação, pois somente com ela consegue reduzir o uso da droga. Deseja agendar consulta médica. Demonstra grande angústia e sofrimento ao me relatar sua história. Pergunto como ele entende a sua relação com a droga, qual função ela cumpre em sua vida. Não consegue elaborar uma resposta. Mudo o rumo da conversar, pergunto sobre seu casamento, sobre seus filhos e netos. Conta que seus filhos andam muito preocupados com ele e que se sente responsável pela felicidade e bem estar de todos. Pergunto se já havia tentado parar de usar a droga em algum momento. Diz que sim, quando se separou da esposa conseguiu ficar 10 meses abstinente, período em que estiveram separados. Silêncio.

Costumo trabalhar com meus pacientes a ideia de que o uso de problemático de drogas é um sintoma ou uma consequência de um problema ou mal estar anterior. O que precede o uso, em termos de sentimentos e emoções, é onde realmente pode estar o problema. Se a pessoa só consegue alcançar bem-estar e relaxamento por meio de métodos artificiais como com o uso de uma droga, seja ela lícita ou ilícita, significa que, logicamente, sem o efeito dessa substância, ela não está conseguindo se sentir bem e relaxada. E a pergunta certa a ser feita é: o que está me causando esse mal estar, que faz com que eu tenha que estar sob efeito de alguma droga para me sentir bem e calmo?

Tratando o mal estar que precede o uso, estamos tratando indiretamente a dependência química. Não se constrói um processo real de reabilitação com o foco somente na quantidade, frequência e meios de uso. O que precisa ser tratado é o sujeito, não a droga. E o sujeito não se resume ao seu uso, existe muito mais acontecendo e que já aconteceu em sua vida. Decisões difíceis precisam ser tomadas. Se meu paciente abandonar o uso hoje, como ele conseguirá alcançar o bem estar que deseja? O que ele terá que fazer, a partir de agora, para se sentir calmo e relaxado? O uso da droga anestesia quais sentimentos ou pensamentos? Sem a droga, como lidar com eles? Sem o anestesiamento da droga e permitindo que seus sentimentos se manifestem, ele será obrigado a lidar com a realidade, nua e crua. Mas, e se essa realidade for repleta de dor e sofrimento? O que fazer?

A notícia boa é que a vida sempre nos possibilita opções e escolhas. Inclusive nos momentos em que nos sentimos no limite, como quando acreditamos não haver mais formas de solucionar nossos problemas, de apaziguar a culpa e de perdoar a si e aos outros. Muitos de nós tivemos ou teremos que aprender essa lição passando por momentos turbulentos como esse, mas como é bom saber que podemos buscar e receber ajuda de profissionais comprometidos e parceiros, como médicos psiquiatras e psicoterapeutas, no caminho que trilharemos para a mudança que tanto desejamos. Que, com coragem, somos capazes de produzir uma nova saúde para nosso corpo, mente, espírito e rotina sem a presença das drogas e seus efeitos. E que sempre nos é dada a oportunidade de deixar morrer um EU para que um outro possa nascer em vida.

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