O presente artigo aborda gravidade e evolução da doença mental com comorbidade e o viés apresentado na reforma manicomial, uma vez que nem de longe o número de CAPS Ad e assemelhados darão conta da necessidade no País.

Em 10 de outubro de 2020, se comemorou o dia da saúde mental. Começo informando que o Brasil tem 14 milhões de pessoas em extrema pobreza, vivendo com até R$ 145,00 mensais.

Em outro extremo, no dia 02 de fevereiro de 2020, Daniel Coutinho, 41 anos, com hipótese diagnóstica de esquizofrenia, matou o seu pai Eduardo, a facadas, feriu sua mãe Maria, e intentou contra a própria vida objetivando o suicídio. Daniel, que sofre de doença mental, teve a prisão preventiva decretada (local que não trata) tão logo deixasse o hospital. O surto psicótico do Daniel tem fortes indícios de ter ocorrido por abandono do tratamento medicamentoso e profissional. Daniel está entre os 2,5 milhões de brasileiros que convivem com esta doença mental e, que com certeza necessitam, por várias vezes durante a vida, de hospital para acolhimento e tratamento.

A tentativa aqui é compreender o rompimento da corda, puxando para lado diferente, se os envolvimentos no tratamento, parte sustentados pelo órgão de classe ao qual pertencem e outros por evidências práticas, destoarem sobre o que é manicômio e o que é proteção e inapetência do Estado para tratar.

As alterações que as pessoas com esquizofrenia apresentam, num primeiro momento, são o isolamento e a dificuldade de sociabilização, além de medos exagerados, excesso de preocupações, distorções do pensamento e da percepção da realidade que levam a caminhos tortuosos.

“Há quem entre em surtos psicóticos – delírios, alucinações visuais, auditivas, olfativas e táteis, o que é impraticável para a família “dar conta”, manifestarem comportamentos repreensíveis e graves.

Um fator importante de se ressaltar é que o doente mental para amenizar a sua dor vai procurar abrigo nas drogas como álcool, maconha, cocaína e fármacos, gerando um quadro ainda mais delicado. Para o tratamento é necessário o isolamento do convívio social, porque o sistema de saúde livre não dá conta da esquizofrenia por si só, imagine o quanto se agrava com a comorbidade por uso de substâncias psicoativas.

Não chamo a atenção para a esquizofrenia em si, nem para as causas das doenças mentais oriundas da desigualdade social, mas para a luta antimanicomial, sugerindo o aprofundamento na obra de Franco Basaglia, a Instituição Negada. A compreensão deve se voltar para os abusos e negligência no tratamento dos doentes e não simplesmente no regime de internamento, frágil e desprotegido. É fundamental estabilizar o quadro em ambiente protegido para posteriormente acontecerem os atendimentos terapêuticos nos centros comunitários, centros de convivências e tratamentos ambulatoriais. Não é uma luta entre ortodoxos e liberais, mas uma causa de “compliance e advocacy” para o doente e seus familiares.

Não nos iludamos com políticas públicas robustas para as várias doenças mentais e para os mais de 30 milhões de dependentes químicos de álcool e outras drogas que vivem no Brasil (UNIFESP, Lenad).

Há 10 anos não tínhamos leitos no Amapá, Rondônia e Roraima e pouco ou nada mudou.

Desde o censo de 2010 do IBGE, falamos em leitos, mesmo que parte da população acredite que haja. Segundo o Ministério da Saúde, “3% da população brasileira têm transtornos mentais severos e persistentes. Mais de 6% têm transtornos psiquiátricos graves decorrentes do uso de álcool e outras drogas e 12% necessitam de algum atendimento em saúde mental, contínuo ou eventual”.

Com o deficitário número atual de leitos no Brasil, a possibilidade de dar tratamento a quem precisa de cuidados de saúde mental é quase nula. E para os dependentes químicos esse cenário é pior.

Lutemos contra os manicômios, a clandestinidade, os maus tratos e negligência, mas façamos isso com a verdade, sem ideologia ou interesses que não corroborem com a necessidade e realidade.

Stephen Hawking: “Mesmo as pessoas que dizem que tudo está predeterminado e que não podemos fazer nada para mudá-lo, olham para os dois lados antes de atravessar a rua.”

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