Dissolver a culpa é um princípio libertador para a codependência

ANDREA BERTI – PSICÓLOGA

No tratamento do dependente químico, a participação da família é de grande importância. Pensar que tudo se resolverá a partir de uma internação ou após algumas consultas psicológicas ou médicas é uma armadilha, a qual não poupa a mais sincera tentativa de tratamento. A dependência vai se instalando ao poucos, e esse processo acaba por prejudicar muitas áreas da vida do dependente e, por consequência, da família também.

Muitos familiares adoecem emocionalmente, pois carregam uma culpa pelo uso abusivo de substâncias químicas do seu ente querido. A culpa escraviza e, com isso, familiares não conseguem tomar decisões visando mudanças. A falta de responsabilidade em não assumir os erros faz com que não haja uma atitude para “correção”.
A culpa vitimiza e paralisa de uma forma ou de outra.

E o que é uma vítima? É uma pessoa que está fadada ao erro do outro.
O ideal seria transformar a CULPA em RESPONSABILIDADE. Um passo importante, então, é tornar-se corresponsável no processo de tratamento.

Não é possível trazer do passado situações para justificar acontecimentos do presente. É importante entender que naquele momento foi feito o melhor possível. Uma das piores coisas de se culpar é não conseguir se livra disso. Aceite que naquele momento da sua vida você fez o melhor que poderia e, agora, a única coisa que você pode fazer para reparar um equívoco é ter ações diferentes.

Um dos princípios libertadores para a culpa é conseguir dissolvê-la e não reforçá-la. Entenda que relações são complexas. Querer trazer do passado respostas para justificar conflitos do presente é injusto com você.
Vários são os impactos que as famílias sofrem pelo uso de drogas de um de seus membros, podendo ser identificadas algumas etapas:

1 – negação do que sentem e pensam;
2 – preocupação excessiva e a tentativa de controlar o uso do outro, muitas vezes agindo com mentiras e cumplicidade;
3 – a família assume responsabilidades de atos que não são seus;
4 – exaustão emocional, podendo surgir distúrbios de comportamento e de saúde.
Esses estágios definem um padrão de evolução da doença, porém, esse processo não será igual em toda família.
O trabalho do Amor Exigente (AE) visa acolher e ajudar a reconstrução dessas estruturas familiares, as quais estão devastadas pelas drogas. Entendendo que para ajudar o outro é preciso ajudar a si mesmo primeiro, reconstruir estruturas, redefinir limites e reorganizar normas e regras.


Tanto o trabalho do AE, como qualquer outro grupo de autoajuda à familiares visa proporcionar um espaço de acolhimento e de escuta, bem como a compreensão da ação desse transtorno mental.


Vamos humanizar mais essa dor. Pai, mãe, esposa também estão fadados ao erro. Admitir que vocês precisam de ajuda é um passo significativo para a mudança.

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