A experiência de vida em comunidades terapêuticas (que “curam”) para dependência de álcool e drogas, chega no Brasil na década de 70 e, paralelamente, o conceito diagnóstico do Transtorno por Uso de Substâncias (Dependência, adicção) ganha, no Reino Unido, por meio de Griffith Edwards os 7 Elementos que definem o grau de comprometimento de um usuário, classificando-o no espectro agudo-crônico.

As comunidades avançam pelo Brasil, utilizando as bases que determinaram seu sucesso nas décadas anteriores nos Estados Unidos, unindo a experiência, conceitos e valores com elementos fortes embasados na visão moral do uso crônico de substâncias psicoativas. Esses elementos paradoxalmente já aceitam o TUS como doença embora, as estratégias, máximas e jargões vão crescendo em torno da pressão, da punição, da penitência e do reforço negativo como meios de provocar as mudanças necessárias.

Em meio a esse cenário, me encontro num grande dilema interior: “acreditar nos discursos de ‘ninguém mandou usar droga’ , ‘você é um sequelado’, ‘você não pode fazer mais nada do que gosta’, ‘recuperação é a arte de se contrariar’, ‘tudo mundo é igual’, ‘você não pode fazer suas vontades’, ‘se quiser fazer do seu jeito, vai fazer na sua casa’… e, muitas outras expressões “criativas” que desenhavam a visão das equipes e de alguns profissionais da área da saúde e principalmente dentro das comunidades terapêuticas.

Nessa jornada, vivemos e replicamos pelo caminho, as contradições do entendimento de doença como conceito teórico, o tratamento com consequências morais, preconceituosas e punitivas durante o processo de mudança, com eventuais crises, retrocessos e recaídas. Exemplificando essa experiência, uma dificuldade no relacionamento, no trabalho ou no controle das emoções era compreendido como uma situação crítica ou dificuldade por uma pessoa ou profissional não dependente e, como perfil do e de doente por um indivíduo dependente. Ou seja, se você não é dependente, a compreensão e a ação é uma mas, se você é um dependente, a compreensão e aceitação é outra.

Paralelamente, a ciência avança trazendo cada vez mais para o campo do conhecimento, estratégias, evidências de que o modelo psicossocial e espiritual aliado à técnicas e profissionais de saúde, melhorando a performance dos membros das equipes e a qualidade do programa, com aumentos significativos nas taxas de adesão, permanência e conclusão no processo de recuperação.

Pessoalmente, me incomodava muito imaginar que poderia ser um sequelado e que não poderia ser feliz com pessoas e atividades que amava, que não poderia mais fazer nada, que não transmitia confiança, que o mesmo Deus misericordioso que me perdoou e me “salvou”, agora me pune por tudo que fiz contra mim mesmo principalmente.

Comecei a estudar e, com a ajuda de Pe. Haroldo Rham, Laura Fracasso e Professor Saulo Mont Serrat, participei de um Congresso Internacional sobre Dependência Química que aconteceu em Campinas, pela PUC, em 1998, dentre esses congressistas, nomes internacionais como do Dr. Eduardo Calinas, psiquiatra da Argentina.

Foi um divisor de águas e percebi então, que a maioria dos conceitos/máximas/jargões eram formas pessoais de enxergarem e encararem a sua própria dependência química e seu jeito criativo de explicar o que compreendiam.

Comecei a partilhar com companheiros essas experiências da literatura, fazendo o paralelo com as nossas características pessoais e a metodologia e o método de Comunidade Terapêutica – CT. Fui convidado a dar aula na FEBRACT – Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas nesse mesmo ano e alguns outros Serviços e Universidades a partir de 2000, fazendo uma grande transferência de conhecimento e compreensão da Ciência para a Comunidade Terapêutica e da Comunidade Terapêutica para a Academia Científica. Um exercício de perseverança, paciência, criatividade e determinação.

A luz desse processo ao longo desses mais de vinte anos, a partir de 2010 o modelo CT, desafia as barreiras ideológicas, políticas, de resistência e preconceito, numa luta numericamente desigual mas, com um poder de persuasão e convencimento forte, graças às mais de 1500 Comunidades Terapêuticas que, mesmo sem nenhum suporte financeiro, sem garantias e reconhecimento legal, incompreendidas e carregadas dos preconceitos humanos, interna e externamente, trazem a vida de volta para homens e mulheres, antes perdidas, sem vínculos saudáveis, oportunidades de trabalho, estudo e renda.

Atualmente coordeno uma CT no interior de São Paulo chamada Santa Carlota, baseada e construída em torno da Ciência e presto consultoria para as Fazendas da Esperança, com alicerces sólidos na Espiritualidade baseada na vivência do Evangelho. O que elas têm em comum? A essência do Modelo CT, projetando um núcleo familiar e microssocial, com tarefas e participação necessárias para as mudanças de comportamento, aprendendo ou reaprendendo valores e princípio de convivência e bem viver, gerenciando as crises e situações difíceis, e ganhando autonomia suficientes para um retorno à sociedade mais seguro.

A história presta sua homenagem aos desbravadores destemidos e, em forma de agradecimento, escreve essa trajetória, na linha do tempo, retratando a realidade de cada período. Não podemos deixar que setores ou interesses pessoais e ideológicos, modifique ou prive a comunidade terapêutica de se organizar livremente e compor o leque necessário para a Rede de Atenção Álcool e Drogas.

Olho para trás e sinto muito orgulho e gratidão por viver intensamente todo esse processo de aprendizado e mudanças na minha profissão e em outras áreas da minha vida. Sinto que hoje, sempre foi e continua sendo, um grande dia para construirmos uma amanhã melhor.

Parceiros

2 comentários em “Dez anos de conquistas das Comunidades Terapêuticas no Brasil”

  1. Avatar
    Carlos Alberto Bazani

    Parabéns Maurício pelo seu empenho e dedicação em ajudar o próximo, sou muito afortunado por ter passado seis anos ao lado de toda essa Equipe Maravilhosa e do Renomado instituto Bairral que venham mais e mais conquistas a todos …
    Medo de nada Só Amor .,.,.

  2. Avatar

    Uma honra conhecer seu trabalho, através das live me sinto feliz pelo sua dedicação e amor por essa causa tão nobre ,são Vidas e merecem todo carinho são apenas vítimas do vício 🙏☝️👏

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *