DEPENDÊNCIA QUÍMICA E REDES DE APOIO: UM OLHAR CONTEMPLATIVO

A dependência química, doença de fator biopsicossocial, vem despertando olhares curiosos acerca de tal, devido à demanda expansiva e consequentemente se tornar um agravante dentro da saúde pública. Portanto, ainda estamos longe de alcançar o desejado referente à promoção de saúde. Dessa forma, trabalhar tal problemática na atualidade envolve uma gama de conjuntos específicos que promovam melhorias tanto no tratamento ao dependente, quanto em termos de promoção e prevenção ao uso de substâncias psicoativas.
Para que tal trabalho se inicie, se faz necessário uma apuração da demanda apresentada, a fim de construção de um projeto individualizado, que vá contemplar todas as necessidades do indivíduo, já que não existe um modelo ortodoxo para todos.

Atualmente, muito vem sendo oferecido à área de se tratar tal doença. Podemos citar a psicoterapia individual, tratamento psiquiátrico e teorias de cunho comportamental (TCC). E para a disfuncionalidade dos comportamentos temos os grupos de mútua ajuda. Um dos tratamentos, que implica em intervenção terapêutica específica é o processo de desintoxicação que ocorre por volta de 30 a 60 dias , no qual o indivíduo está desintoxicando organicamente. Tal processo pode ser feito tanto em condição de internação (comunidades terapêuticas/clínicas), diante o forte fator de proteção, ou até mesmo em condições hospitalares, quando se inclui tratamento medicamentoso, como fator contingencial dentro do quadro de abstinência e fissura. É importante também o processo de terapia familiar, pois a doença se estende à família, que na maioria da vezes se torna codependente e até mesmo facilitadora para o uso de substâncias, por não ter informações claras e pelos vínculos afetivos adoecidos.

Se faz necessário mencionar que, como qualquer tratamento, há fases a se enfrentar. A primeira fase é o processo de desintoxicação, como citado no parágrafo acima, que se faz necessário num período de 30 a 60 dias para que o indivíduo posso desintoxicar fisicamente, para que assim possa dar continuidade a todo tratamento, já que diante de estar entorpecido, há perda de crítica diante de sua condição existencial, o que por muitas vezes o torna resistente a se tratar. Após, vem a fase de manutenção, levando em consideração que se trata de uma doença incurável e que reinstala. Sendo assim, o tratamento é algo eterno, que contemplará uma nova forma de viver e construção de um plano de vida.


Entretanto, nem tudo são flores, já que se observam baixos índices de recuperação, pois diversos fatores podem contribuir fortemente para não adesão ao tratamento. Primeiro é o próprio indivíduo, que carrega diversas crenças como ter autocontrole de seu uso e propriamente querer se tratar. A isso denominamos autossuficiência, o que muitas vezes configura o abandono ou até mesmo o retorno ao uso de substâncias.

De acordo com Ferreira e Luiz (2004), é de suma importância destacar que a realidade brasileira nunca teve uma política específica de saúde, em nível nacional, a respeito da questão de drogas, o que começou a mudar a partir de 1998, quando foram definidos os requisitos para criação do Centros Regionais de Referência em Prevenção e tratamento ao uso abusivo de substâncias psicoativas, sejam essas lícitas ou ilícitas.


Devido a reforma psiquiátrica, foram criadas novas diretrizes para a assistência em saúde mental, definindo as normas a serem respeitadas para a implantação dos Centros de Atenção Psicossocial (NAPS/CAPS), sendo que, em uma primeira fase do tratamento, os quadros de intoxicação/abstinência eram encaminhados para os mesmos, porém, estes não supriam toda demanda de necessidade.
A necessidade de encarar e enfrentar tal doença como uma realidade diferenciada e que necessita de acompanhamento, não sendo, portanto apenas uma questão de moral ou desvio de caráter, traz à tona a importância de se discutir ações de promoção e de prevenção ao uso de drogas, com o intuito de reduzir tal fenômeno em nossa realidade.


Infelizmente, nossas estatísticas são um muito desanimadoras. Atualmente são 29 milhões de pessoas dependentes em nosso país, muito vem se fazendo em termos de saúde nessa área, porém, muito se precisa desenvolver. Não se trata apenas de um olhar profilático, mas, sim, se estender a um olhar empático e piedoso a uma doença devastadora. Deixando claro que, se o adicto em si não compreender a necessidade e a responsabilidade em se tratar, ou seja, dar continuidade no tratamento por toda sua vida, esse fantasma voltará a assombrar.

Psicóloga: Marcela Abrahão da Silveira.
CRP: 06/118484
Bacharel no curso de psicologia – faculdade FAAT.
Pós-graduada em psicologia forense – faculdade Unyleya.
Atua na área de dependência química há 9 anos.
Mais informações, marcela.real@hotmail.com

Referência:

FERREIRA, P. S.; LUÍS, M. A. V. (2004). Percebendo as facilidades e dificuldades na implantação de serviços abertos em álcool e drogas. Texto e Contexto de Enfermagem, 13, 209-216.

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