Muito se fala e se estuda sobre as dependências químicas (pessoas que têm problemas com drogas como álcool, tabaco, maconha, cocaína, entre outras). No entanto, principalmente na última década, pesquisadores e profissionais da saúde observaram que alguns comportamentos também podem ocorrer de modo compulsivo e gerar um quadro de dependência, ou de Adição, que é o nome técnico utilizado. O primeiro desses comportamentos, que já foi reconhecido e classificado como um Transtorno Aditivo, em 2013, no Manual dos Transtornos Mentais DSM 5, foi o Transtorno por Jogo, que antigamente era chamado de Jogo Patológico. Indivíduos com tal problema jogam em bingos, em máquinas caça níqueis, etc de modo compulsivo e seguem com tal comportamento apesar dos evidentes prejuízos sociais e/ou financeiros. Outros comportamentos que podem gerar um quadro de dependência são: compras, sexo, atividade física, internet e jogos online e até a comida.

O conceito de Adição à Comida foi introduzido, em 1956, por Theron Randolph, que percebeu um padrão comum de sintomas entre alguns daqueles indivíduos que comiam compulsivamente e as pessoas com outros processos aditivos, como a dependência de alguma droga. Parece que as comidas mais palatáveis, como os doces, os carboidratos e as gorduras, são as que mais podem gerar esse problema. Estima-se que cerca de 16% da população, em geral, possa ter Adição à Comida. Já entre os obesos ou entre aqueles que tem um diagnóstico de Compulsão Alimentar (repetidos episódios de comer grandes quantidades em um período curto de tempo, cerca de 2h, gerando prejuízo importante em sua vida) cerca de 50% deles apresentam sintomas compatíveis com uma dependência alimentar. Tal ocorrência é mais comum entre as mulheres do que entre os homens e pode ter uma associação com sintomas de depressão e de ansiedade. Uma forma de se identificar esse problema é através de uma escala, que tem uma versão em português, chamada de Escala de Adição Alimentar Yale.

Assim como na dependência química, pessoas com Adição à Comida podem apresentar os seguintes sintomas: perda de controle, gerando um comer compulsivo apesar das repercussões negativas na sua vida; tolerância (necessidade de quantidades maiores de comida para obter a mesma gratificação); impulsividade, abstinência (sintomas de ansiedade e depressão quando privados de comidas altamente palatáveis); fissura (desejo intenso de comer mesmo sem ser por fome); presença de prejuízo social significativo, como deixar de participar de eventos ou se ausentar em compromissos pessoais; ativação cerebral do “circuito do prazer”, denominado Sistema de Recompensa Cerebral.

Alguns alimentos, principalmente os doces, parecem acionar, no nosso cérebro, esse Sistema de Recompensa Cerebral, que é capaz de liberar uma série de substâncias capazes de nos darem prazer, como a dopamina, por exemplo. O que ocorre é que, indivíduos com uma predisposição para desenvolverem um quadro de dependência, começam a comer compulsivamente em busca dessa gratificação imediata e não conseguem mais interromper tal comportamento mesmo que as consequências negativas surjam de modo significativo. Além disso, as situações de estresse ou a presença de emoções negativas, como tristeza e irritação, podem acionar a vontade de comer doces, de modo compulsivo, na tentativa de aliviar tais sensações.

Enfim, parece que, além das drogas, existem diversos comportamentos que também podem gerar dependência e repercutir de modo bastante prejudicial na vida do indivíduo. Ainda existe muita discussão, no meio científico, se essas dependências comportamentais serão reconhecidas, individualmente, como problemas de saúde. Porém, mais importante até do que esses problemas serem reconhecidos como doenças, é podermos identifica-los e pedir ajuda especializada para lidar com eles. É fundamental que uma pessoa com Adição à Comida aprenda a lidar de outras formas com as suas emoções negativas e trate os outros transtornos psiquiátricos, como a depressão e a ansiedade quando estiverem presentes. Existem Psicoterapias Cognitivo Comportamentais, técnicas de relaxamento e de medicação e grupos de mútua ajuda, que podem ser muito úteis no manejo desse problema.

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