Era uma tarde tranquila, quando entra no escritório um senhor de simples trajar, gesto sereno e do qual nunca poderia esperar a história.

Ele senta à minha frente, e fala com voz triste, que estava procurando ajuda para seus 2 filhos, ambos com 30 anos, aproximadamente.

Fala da sua preocupação de que eles possam ser prejudicados por traficantes e ainda teme, que numa situação de confronto, caso eles sejam encontrados em cenas abertas de uso, a polícia possa prende-los, ou até sofrerem algum tipo de violência como serem alvejados por balas perdidas em confronto armado, e por isso resolveu “sair de casa e morar na rua”, pois não poderia imaginar, depois de tanta luta em protege-los, de riscos variados, que eles fossem fisicamente submetidos a situações, como as acima descrita.

Sim, vocês entenderam direitinho, “o pai saiu de casa, e foi morar na rua há meses, para que os filhos não saiam”.

Esta história é real, e adequada para concluir o estudo da CODEPENDÊNCIA, e seu quarto estágio, chamado EXAUSTÃO EMOCIONAL.

Vocês conseguem imaginar o jogo de emoções que este senhor viveu nos últimos meses? Um misto de ódio, amor, raiva, culpa, dor, sentimentos que se confundem, e se entrelaçam, nesta rede de intrigas que formamos dentro do nosso pequeno espaço. Na verdade, ele já havia tentado de tudo para ajudar os filhos, procurou ajuda medica para eles, procurou clínica para interna-los, tentou convencer a mulher para ajuda-los aqui e ali, mas nunca parou para pensar que a doença dos filhos tinha desorganizado de tal forma a sua vida, que ele também estava doente, perdido em atitudes desequilibradas, procurando ajuda fora de si e não dentro de si.

Uma vez eu ouvi a seguinte afirmação: – “Não adianta você querer ajudar a alguém, se não cuida de si próprio”. Porque nada muda se não mudamos.

O que acontece é que faz mais sentido, para quem está com a doença que falo, tentar mudar o outro, pois dará muito trabalho fazer essa mudança pessoal, mesmo porque você já está em total exaustão emocional, tendo enfrentado os outros três estágios, NEGAÇÃO, TENTATIVA DE CONTROLE, DESORGANIZAÇÃO FAMILIAR.

E concluo esse trabalho com uma conclusão interessante da “American Society of Addiction Medicine”:

“A fase I:Foco é o USUÁRIO. Tem como objetivo estimular e tentar a abstinência do usuário. É importante auxiliar as pessoas a assumir a responsabilidade sobre seus comportamentos e sentimentos. (Nesta fase é trabalhado o conceito de codependência. )

A fase II: O foco é a FAMÍLIA: Identificar padrões disfuncionais na família como um todo. Nesta fase busca-se a retomada funcional dos familiares e conforme o grau de dificuldade, o encaminhamento para uma psicoterapia familiar especializada pode ser realizado

A fase III: O foco é a MANUTENÇÃO. Muito tempo após a cessação do consumo de substâncias, alguns relacionamentos continuam conturbados. Nesta fase do tratamento, busca-se manter a participação de todos no tratamento, intervindo nas possíveis causas da recaída. É uma fase perigosa.”

Ou seja, o familiar que desenvolveu a CODEPENDÊNCIA, deve considerar a participação em grupos que lhe ajudem a garantir, mesmo depois que a doença deixe de estar presente, um continuo equilíbrio, pois alguns hábitos permanecem prontos para serem retroalimentados e eu tenho certeza que o que mais queremos é uma família alegre e saudável.

E só depende de nós, porque “nada muda se não cada um não mudar”.

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2 comentários em “Codependência, até cansar.”

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