CODEPENDÊNCIA – Quando o cuidado torna-se uma doença

Autores: André Luis Granjeiro Psicólogo Especilaista em DQ pela UNIAD/UNIFESP
Danyelle Argemira G. Fernandes, graduanda em Psicologia UNIP Campinas-SP

O (TUS) -Transtorno de uso de substância- torna-se grave, crônico e progressivo, acarretando prejuízos biopsicossociais ,além de espirituais, e limitando a vida do dependente, em suas relações e interações sociais, em uma estrutura global. O TUS é multicausal com uma abrangência multifacetada, causando, por isso, uma destruição massiva no ambiente das relações pessoais e profissionais. A convivência com um dependente químico exige de seus familiares um estabelecimento de limites, cuja carga emocional, em muitos casos, não é bem assimilada e absorvida, causando uma autodestruição imperceptível aos envolvidos nesse ambiente disfuncional. Nesse processo de autossabotagem, o zelo maciço do cuidador passa a ser outro transtorno, tão grave quanto a própria dependência química: a “codependência”.


A codependência, segundo Norwood, é a limitação, no estabelecimento de relações saudáveis retroalimentadas pela submissão e controle sobre o outro, em uma anulação de si mesmo. Em um processo doentio de controle, o codependente assume a responsabilidade do outro para si mesmo, enquanto isenta-se de seu real processo de autorresponsabilidade. Assim, adquire para si todos os prejuízos e dissabores ocasionados pela impetuosidade da proximidade com um dependente químico, como perdas financeiras, agressões, dívidas alheias, perda de emprego, entre outras, assumindo para si a corresponsabilidade dessas demandas, submetendo-se a qualquer consequência em nome do outro.

Esse termo, primeiramente adotado por grupos de ajuda a familiares e cônjuges, passou a ser adotado para os familiares ou cônjuges de dependentes químicos e/ou de portadores de psicopatologias graves, cujo comportamento denuncia uma forte dependência da problemática do outro. Refere-se a:

“..pessoas fortemente ligadas emocionalmente a uma pessoa com séria dependência física e/ou psicológica de uma substância (como álcool ou drogas ilícitas) ou com um comportamento problemático e destrutivo (como jogo patológico ou um transtorno de personalidade).” (CODA Co-dependentes Anônimos Brasil).

Enquanto o dependente químico possui adicção a substâncias psicoativas, sejam elas quais forem, o codependente é adicto ao “seu dependente”, coligado em uma “atadura emocional”, ou, em outras palavras, depende da patologia do outro.

“O co-dependente repete os mesmos comportamentos ineficazes de quando era criança com o objetivo de ser aceito, amado e importante, e, por tal conduta, tenta aliviar a dor e o sofrimento por sentir-se abandonado. No entanto, paradoxalmente a esse comportamento, o co-dependente tende a perpetuar estes sentimentos. O vínculo defeituoso que se estabelece carrega as preocupações com o que os outros pensam e o medo da perda de um relacionamento, sente e experimenta a culpa e está sempre tentando reparar danos. A percepção que o co-dependente tem do mundo é perigosa, visto que o mesmo apresenta a necessidade de proteger e o medo de ser abandonado.” CARVALHO e NEGREIROS, 2011.

Por esse motivo, o olhar e cuidado sobre o familiar são preponderantes no tratamento da dependência química haja vista que o ambiente familiar e social podem atuar como fatores de risco ou proteção quanto à dependência. O entendimento sobre esse transtorno, que afeta principalmente familiares e cônjuges de dependentes químicos e outras psicopatologias, é de extrema importância, em um contexto para entender-se o fenômeno das dependências como um todo. O dependente químico é um ser inserido em um ambiente familiar, social, cultural e espiritual agregando um raio de influência crescente e abrangente. E assim, como um ser co-autor de seu meio, não deve ser visto nas limitações de seu corpo físico, e sim como um ser social e ator de transformações ao seu redor. Muitas vezes, trata-se do “doente” desconsiderando-se o seu entorno familiar e social, cujos atributos podem ser facilitadores e perpetuadores como podem ser limitadores e inibidores do processo da dependência, retroalimentando-se por relações doentias, em uma dinâmica destrutiva de dependências paralelas. Assim, o dependente possui uma relação incontrolável com o objeto de desejo, enquanto o codependente tem essa mesma relação de sujeição ao seu dependente. (Oliveira, 2004).

A codependência caracteriza-se pela incapacidade do indivíduo em formular suas próprias necessidades, enquanto define-se apenas na presença do outro. A tensão mantém-se de forma permanente, conforme Carvalho e Negreiros (2011) citando Hernández Castañón (2007); Leis e Costa (1998):

…devido à atitude do co-dependente em manter o relacionamento, na medida em que a intimidade e a cumplicidade aumentam, pois o mesmo é um integrante de uma rede na qual se envolve de maneira obsessiva aos problemas e à vida do dependente, ocasionando o desequilíbrio em sua vida pessoal, familiar, social e profissional.” (CARVALHO E NEGREIROS, 2011)

Os autores ainda ressaltam ,contextualizando com Beattie (2007); Tofolli, et al. (1997); Zampier (2004):

“Nesta condição o indivíduo depende da aprovação e da capacidade para se controlar, assim como o outro. Além de freqüentemente se preocupar com pessoas que apresentam características de instabilidade, o co-dependente apresenta impulsividade, medo, insegurança, dificuldade em expressar sentimentos, incerteza do futuro, medo de errar, culpa, justificativa para o insucesso, necessidade de ser útil acompanhada de sofrimento, competição e disputa para sempre ter razão, ambivalência entre afeto, raiva e frustração, baixa auto-estima, ansiedade em querer mudar o outro e controlá-lo, excessiva negação, vitimização, estresse, indignação, mágoa, falta de afeto, desvalorização, doença, depressão, abatimento, mau humor, decepção, desespero. Quanto aos sentimentos percebidos para com ele, sentimentos estes centrados na pessoa, destacam-se insatisfação, desrespeito, pena, violência, raiva, exploração, desprezo, comparação, distanciamento e abandono. Apresentam dificuldade na identificação da auto-imagem, dificuldade em expressar ou identificar sentimentos, vitimização, ansiedade em relação à intimidade. Das características centradas na relação, ou seja, comportamentos em relação a si mesmo ou aos outros, se destacam a compulsividade e a distorção de limite, assumem indevidamente a responsabilidade, recorrentemente assumem relacionamento com pessoas “conturbadas” e podem ser vítimas de abuso físico e/ou sexual.” (CARVALHO e NEGREIROS, 2011).

Portanto, a codependência é um padrão repetitivo de atadura emocional que age com uma disfuncionalidade em grande parte dos vínculos (FAUR, 2012), causando grandes impactos e sofrimento na vida de quem a vivencia. Com um controle excessivo sobre a vida do outro e com um alto índice de tolerância e permissividade quanto a abusos sofridos, o codependente torna-se tão manipulador e corrosivo quanto o próprio dependente químico. Entretanto, é vital ressaltar-se que nem toda forma de apoio, compreensão e altruísmo são problemáticos, pois esse funcionamento é muito importante para o vínculo sadio e fortalecimento familiar. A problemática aparece quando essas ações geram sofrimento contínuo aos envolvidos e não são salutares na proposta de melhora da dependência química ou de qualquer outro transtorno grave, podendo evoluir para um agravamento do quadro. Correr riscos pelo filho amado; pagar dívidas de tráfico; facilitar o acesso à substância para sanar o craving provocado pela abstinência, abusos físicos e psicológicos por “amor” ao cônjuge ensandecido, perder a saúde devido à preocupação com comportamentos alheios; viver a vida do outro, em vez de assumir a responsabilidade pelas próprias dores, são apenas alguns exemplos. A codependência possui tratamentos terapêuticos psicológicos baseados no autoconhecimento e na retomada da autorresponsabilidade e assunção de si mesmo como um ser humano autoconfiante e integral na busca de sua autoestima. Existem grupos de apoio a todos os envolvidos no processo da codependência, que são vitais para o reerguimento desses familiares que perderam suas vidas em uma tentativa de assumir a vida do outro. Nar-anon (Apoio aos familiares de Narcóticos Anônimos), Al-anon (Apoio aos familiares de Alcoólicos Anônimos), Amor Exigente e o CoDA (Co-Dependentes Anônimos) são grupos que podem facilitar o processo do tratamento e estabelecimento de relações mais saudáveis e funcionais. Se você se identifica ou conhece alguém que se encaixa nesse perfil, procure ajuda.

Referências Bibliográficas:
BEATTIE, M. (2007). Co-dependência nunca mais. Rio de Janeiro: Nova Era.
CARVALHO, Leilanir de Sousa; NEGREIROS, Fauston. A co-dependência na perspectiva de quem sofre. Bol. psicol, São Paulo , v. 61, n. 135, p. 139-148, jul. 2011 . Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0006-59432011000200002&lng=pt&nrm=iso. acessos em 20 fev. 2021.
FAUR, Patrícia. Amores que matam. Quando um relacionamento inadequado pode ser tão perigoso quanto usar uma droga. L&PM Pocket, 2012.
HERNÁNDEZ CASTAÑÓN, M.A. (2007). Ação comunitária com mulheres de alcoolistas: Uma aproximação ao seu mundo da vida. Tese de Doutorado. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP. Recuperado em 24 de março, 2009, de biblioteca.universia.net/html_bura/ficha/params/id/30827711.html.
IZQUIERDO, F.M. (2001). Codependencia y psicoterapia interpersonal. Revista de la Asociación Española de Neuropsiquiatria, 21(8), 9-35.
NORWOOD, Robin. Mulheres que amam demais. Tradução de Cristiane Perez Ribeiro. 32Ed. São Paulo: Arx,2005.
OLIVEIRA, A.P. (2004). Co-dependência é um distúrbio mais frequente do que se imagina. Folha de São Paulo Online. São Paulo, 12 de agosto de 2004. Recuperado em 27 de junho, 2009, de http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u3696.shtml.
ZAMPIERI, M.A.J. (2004a). Co-dependência: O transtorno e a intervenção em rede. São Paulo: Agora. [ Links ]
ZAMPIERI, M.A.J. (2004b). Transtorno de personalidade co-dependente: Discussão sobre classificação diagnóstica e manifestações sistêmicas. Revista Brasileira de Psicoterapia, 6 (2), 123-134.
CoDA ( Co-dependentes Anônimos) BRASIL Disponível em:
https://codabrasil.org.br/o-que-e-codependencia/#:~:text=Codepend%C3%AAncia%20%C3%A9%20um%20termo%20da,patol%C3%B3gico%20ou%20um%20transtorno%20de acesso em 18 de fevereiro de 2021.

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