Gostaria de salientar a participação dos meus alunos do curso de AT em DQ, juntos na elaboração deste artigo, gratos a todos os envolvidos.

Danyelle Argemira Guimarães Fernandes, graduanda em Psicologia na UNIP Campinas – SP
Eadred de Lima Ribeiro – graduanda em Psicologia pela FAC 3 – Campinas – SP
Henrique Castanheira – graduando Psicologia na UNIP – Campinas – SP
Joaquina Nadir de Mattos, Assistente Social CREES 57089, atua como assistente social no programa de República Terapêutica do Instituto Padre Haroldo e conselheira em Dependência Química pela FLACT e FEBRACT.
Leonardo Maia dos Santos, graduando em Psicologia na UNIFRAN – Franca – SP
Samuel de Souza Ferreira, graduando em Psicologia pela FAC 3 – Campinas – SP
Viviane Pires Poggetti, graduanda em Psicologia pela FAC 3 – Campinas – SP

Nos textos anteriores, ficamos cientes das atividades do Acompanhante Terapêutico (AT), das especificidades e habilidades as quais essa profissão exige. Neste artigo, dissertaremos sobre a importância do autocuidado para melhor atender às demandas de seus acompanhados. Um olhar de atenção para si mesmo garante ao AT ser um agente promotor de mudanças em uma dimensão biopsicossocial de seu acompanhado sem o comprometimento de sua própria saúde e seu provável adoecimento. O autocuidado, segundo Sousa Ribeiro e Santos (2018), consiste na dimensão do cuidado que volta o olhar para si, não excluindo, é claro, o cuidado e preocupação pelo outro e pelo mundo que nos cerca.

O trabalho de cuidado propicia um agir condicional que afeta as relações intrapessoais e interpessoais. Esse autocuidado é individual, respeitando a singularidade de cada um, e pode ser construído de maneiras diversas através de diferentes estratégias. Sob uma autonegligência, colocando-se não como sujeito ativo em trocas sociais onde fica-se a mercê das várias possibilidades de sentir e existir, uma condição de sofrimento, apatia, desconexão pode culminar em estados ansiógenos e depressivos caso tais demandas não sejam devidamente validadas, abordadas, aceitas e trabalhadas. Pensando nisso, quem cuida das demandas do AT?

O AT como todos os profissionais, por mais capacitado que seja, também precisa de um olhar atento à forma que durante o processo terapêutico acolhe demandas que passam a ser suas além de estar exposto ao sentir e permitir, de acordo com o respeito ao livre arbítrio do acompanhado e o acordo fundado com a família envolvida. Muitas inquietações surgem e nem sempre recebem um olhar atento ou são consideradas, comprometendo a saúde mental do profissional. A importância do aceitar e agregar emoções do falar, do lazer, das atividades físicas gera enriquecimento para a saúde psicológica como importante ferramenta para o acolhimento de dores existenciais.

O cuidado para com o AT precisa ser considerado para que se tenha parâmetros e repertórios para lidar com dores alheias e com as próprias. O AT não é um “super-herói que resgata os fracos e oprimidos” e sim, uma pessoa que embasa-se em teorias e vivências para auxiliar a quebra da estagnação do sujeito, dando suporte emocional e sendo partícipe de um processo que acolhe, amplifica caminhos e instrumentaliza o acompanhado para o encontro de sua autonomia. Foucault (2009) cita a preocupação com o autocuidado como parte esquecida pelo caminho do autoconhecimento:

“Ocupar-se de si não é uma sinecura. Existem os cuidados com o corpo, os regimes de saúde, os exercícios físicos sem excesso, a satisfação, tão medida quanto possível, das necessidades. Existem as meditações, as leituras, as anotações que se toma sobre livros ou conversações ouvidas, e que mais tarde serão relidas, a rememoração das verdades que já se sabe, mas de que convém apropriar-se ainda melhor. […] Em torno dos cuidados consigo toda uma atividade de palavra e de escrita se desenvolveu, na qual se ligam o trabalho para consigo e a comunicação para com outrem”. (FOUCAULT, 2009 p. 56-57)

Foucault (2009) ainda complementa sobre a visão de autocuidado como um sinalizador de liberdade. “A importância do corpo-mente como uma unidade transcendente e singular. Existimos para gerar autoconsciência e responsabilidade sobre a nossa própria vida”. “Para isso, é necessário realizar um processo de aprendizagem e passar por inúmeras situações onde ela é colocada em prática” (Gomes, Ferreri e Lemos, 2018 p. 189-195). Com uma desconexão de apropriações que não sejam próprias como demandas aflitivas e inquietantes do acompanhado é compulsório que sua atuação restrinja-se apenas ao setting terapêutico. Frequentemente o AT expõe-se à uma influência de conflitos e situações diversas que podem alterar seu equilíbrio orgânico e emocional, adoecendo-o. De forma que essa autossuficiência emocional fique prejudicada por demandas que não sejam próprias. Por isso, é fundamental que esse profissional concentre-se em atividades que tragam qualidade de vida e bem estar para que tenha condições psíquicas de encarar um trabalho deveras complexo. Através de atividades ao ar livre, leituras edificantes, atividades espirituais, físicas e hedonísticas.

O autocuidado não envolve técnicas e procedimentos técnicos, entretanto, tratam-se de ações significativas para o sujeito em um sentido integralizado ao entendimento e acolhimento de suas demandas. Um cuidado do homem visto com um ser integral e interdependente do meio em que atua, transformando e sendo transformado por este mesmo meio. Importante ainda considerar que o termo “autocuidado” foi gerado em 1967, pela enfermeira Dorothea Elizabeth Orem, cujo olhar direcionava-se para atividades de saúde, lazer e bem-estar utilizando-se tanto de cuidados formais quanto informais (Henriques e Coppard, 1985). O autocuidado define-se “como todas as práticas desenvolvidas pelo próprio sujeito em seu benefício para promover, preservar, assegurar e manter a vida” (Brasil, 2008), promovendo a autoestima e o manejamento de tomadas de decisão.

Trata-se de um voltar-se a si, aproximando o sujeito de um conhecimento de seu interior, trazendo intimidade, aceitação, empatia, máximo zelo para com suas próprias demandas. Já que observa se a relação entre o descuidar de si mesmo estar relacionado ao desconhecimento de si próprio e, assim, após essa autoconsciência, ocorrem uma autoaceitação e uma autorregulação flexibilizada pela empatia e pelo caminho traçado por outrem. Pedrosa e Polejack (2016) adicionam que:

“O significado de cuidado é vinculado à vida, proteção, atenção, carinho, qualidade de vida, relação com o outro e com nós mesmos, algo que todos precisarão em algum momento da vida e deve ser realizada da melhor maneira possível, de modo holístico. Apesar do autocuidado ser caracterizado como o ato do indivíduo se responsabilizar pelo seu próprio cuidado, adotando hábitos saudáveis e atividades prazerosas para manutenção, promoção e prevenção da saúde e bem-estar, […]. Chama a atenção o fato de apesar do profissional de saúde dominar conhecimentos e técnicas para cuidar da sua saúde também negligencia o próprio cuidado por várias razões […] (PEDROSA e POLEJACK, 2016 p.1-10)

Contudo, há muito ainda a ser pesquisado e estudado sobre a relevância do autocuidado. Este precisaria ser ensinado e legitimado para que profissionais como o AT e da saúde criassem estratégias precisas para lidarem com suas próprias demandas e de seus acompanhados. Um olhar cuidadoso para a supervisão também precisa ser considerado como um ponto de autocuidado. O trabalho direcionado a resolução e estudos aprofundados de casos incentivados por diferentes vivências e experiências induz o profissional para que perceba envolvimentos com o contexto intra e extrafamiliar, social e concessões acordadas pela convivência com o próprio acompanhado e família. Nesse ambiente de contínuo convívio profissional e pessoal, projeções e transferências podem surgir fatores que poderão ser acolhidos e previamente identificados pelo supervisor. “Cuidar de si para cuidar do outro”, ponto crucial em um processo de acompanhamento terapêutico cujo teor engloba a visão do ser social, intrapessoal, inter- relacional em um contexto multifacetado e como agente de integração e autonomia do sujeito para a conquista de uma funcionalidade existencial.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

FOUCAULT, M. História da sexualidade: o cuidado de si. Rio de Janeiro: Graal , 2009.v.3.

GOMES, Marcel Maia; FERRERI, Marcelo; LEMOS, Flávia. O cuidado de si em Michel Foucault: um dispositivo de problematização do político no contemporâneo. Fractal, Rev. Psicol., Rio de Janeiro , v. 30, n. 2, p. 189-195, Aug. 2018 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-02922018000200189&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 26 Set. 2020. https://doi.org/10.22409/1984-0292/v30i2/5540.

PEDROSA, N.T.; POLEJACK, L.. Cuidado e Autocuidado em Oncologia: significados para profissionais e usuários. Mudanças – Psicologia da Saúde, [S.L.], v. 24, n. 2, p. 1-10, 30 dez. 2016. Instituto Metodista de Ensino Superior. http://dx.doi.org/10.15603/2176-1019/mud.v24n2p1-10. Disponível em: https://www.metodista.br/revistas/revistas-metodista/index.php/MUD/article/view/6402. Acesso em: 08 out. 2020.

SOUSA, C. M. M. de, RIBEIRO, M. S. de S., & SANTOS, T. de L. S. (2018).Experiência de autocuidado nos processos formativos: uma análise fenomenológica hermenêutica. Linhas Críticas, 24. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/linhascriticas/article/view/18984 https://doi.org/10.26512/lc.v24i0.18984. Acesso em 08 Out. 2020

Autocuidado é um sinal de liberdade. Disponível em: <https://amenteemaravilhosa.com.br/autocuidado-sinal-liberdade-foucault/>. Acesso em 26 Set. 2020

O que é o autocuidado e porque ele é importante. Instituto de Psiquiatria Paulista. Disponível em: https://psiquiatriapaulista.com.br/o-que-e-autocuidado-e-porque-ele-e-tao-importante. Acesso em 05 Out. 2020.

Parceiros

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *