Ambivalência e o uso de drogas

Acreditamos que o termo mais completo para se entender a complexa questão que envolve o dependente de substância psicoativas, lícitas ou ilícitas, seja ambivalência. Esse termo dá a dimensão do paralelo que existe entre o desejo, a vontade, ou necessidade de usar a substância e a força, o recuo ou negação em não usar. Essa dicotômica existente entre dois sentimentos, duas necessidades ou vontades em relação a uma mesma conduta que se opõe mutuamente, em que vive a pessoa que já experimentou algum produto entorpecente, ou que dele tornou-se dependente, caracteriza-se como uma situação que precisa ser debatida a fim de que se conheçam os aspectos potencializadores dessa condição para poder combatê-los eficazmente.
O que nos instiga nesse artigo é a discussão sobre a ambivalência em relação aos fatores que levam à recaída, mesmo após o processo de desintoxicação e tratamento.


Numa análise empírica, considerando nossa experiência, familiar ou pessoal, em relação a esse estado de ter, simultaneamente, sentimentos conflitantes perante a substância psicoativa, podemos dizer que a ambivalência e o uso de drogas têm na questão emocional sua divisa. Dizemos isso porque, quando a pessoa está psicológica e emocionalmente bem, quando consegue compreender suas fraquezas e resistências em relação às drogas, quando, ainda, consegue ponderar e decidir física e mentalmente o que quer para sua vida e como deseja viver e se relacionar, pende mais para um dos lados ambivalentes, neste caso o do não uso de drogas. Mas quando, por algum evento ou situação cotidiana, em que o fator emocional é afetado, positiva ou negativamente (pois pode ser uma sensação de dor, perda, tristeza ou de alegria, euforia, entusiasmo), a linha que separa a ambivalência fica mais tênue, de modo que a pessoa pode (e geralmente recorre) recorrer a substâncias lícitas ou ilícitas para “suportar” melhor a situação.


Quantas vezes, já ouvimos as pessoas dizerem que precisam tomar alguma coisa, fumar um cigarro ou usar algo para se sentirem mais calmas? Na verdade, o que querem e precisam é um subterfúgio para lidarem melhor com a emoção, ou seja, precisam de ajuda para suportar a ambivalência de pensamentos e emoções simultaneamente positivas e negativas em relação à substância psicoativa.
Também de forma empírica, julgamos que a pessoa gravita entre ambivalências quando se encontra na situação emotiva descrita acima. A ambivalência pessoal, porque é ela que sente e deve decidir se recorre ou não ao “amparo” das drogas e a ambivalência social, que se refere à força do julgamento que a sociedade inevitavelmente faz em relação àquela pessoa que é ou já fora dependente. Certamente é uma situação cruel para o indivíduo que se percebe envolto à necessidade do organismo pela substância, a qual se confunde com a vontade pessoal, potencializada pelo fator emocional, e a imposição, dúvida ou escrutínio social. É, portanto, uma confluência de fatores em que se encontra a pessoa que deve decidir se continua distante ou aproxima-se novamente das drogas.


O uso de substâncias psicoativas sempre esteve presente na sociedade, não discriminando raça, cultura ou classe social. A dependência química está associada a diversos fatores, entre eles fatores genéticos, ambientais e culturais, mas em qualquer situação a pessoa se vê envolta a essa ambivalência.


As consequências do uso de drogas têm se tornado uma preocupante realidade. O fácil acesso, principalmente às drogas lícitas, e até mesmo aos fármacos, englobando a falta de políticas públicas, torna as lícitas uma porta de entrada para uma triste realidade: a dependência e a consequente ambivalência de que falamos. O consumo abusivo não escolhe setores na sociedade. Médicos, policiais, educadores, estudantes, adolescentes etc. Embora cercado por toda diversidade das opiniões a respeito de danos, benefícios, prazer e desprazer, todos podem estar cada vez mais à mercê de um “mercado” medicamentoso de uso descontrolado e abusivo das drogas lícitas, bem como do terrível e potencialmente perigoso mundo das drogas ilícitas.


Ao iniciar e continuar o uso de drogas ilícitas, a tendência é que o indivíduo seja levado a consumir em excesso, persistente e com fins não medicinais. Ao ficar dependente das drogas, quando limitado o uso, pode recorrer a qualquer meio para obtê-la, passando a fazer parte do mundo do crime, antes de forma indireta, como dependente, e, depois, como, praticante de atos ilegais para conseguir manter o vício. Isso ocorre devido à dependência ser gradativa. Para que se possa ter o mesmo efeito inicial, o dependente aumenta a quantidade da dose, assim fará com que seu organismo fique mais tolerante e passe a desenvolver a dependência física e psicológica da droga.


Para ambos, seja o usuário de substância lícitas ou ilícitas, um caminho a percorrer é a busca por tratamento na reabilitação. O modelo moral é um dos mais conhecidos em que a pessoa é responsabilizada pelas escolhas que faz na constante ambivalência que envolve o uso das drogas. É considerado falha de caráter a volta ao uso, ao passo que resistir é mostra de superioridade. Nesse ponto, além de todo o acompanhamento profissional, interação com outras pessoas e ajuda mútua, o fator espiritual pautado na esperança a partir de uma entrega a uma força superior é importante.


A relação do consumo de drogas com a depressão faz com que o hábito de consumir se apresente como uma luz ao fim do túnel, escapando assim de todo sofrimento emocional. Não devemos ignorar que a combinação entre depressão e o uso de drogas representa um risco considerável à saúde, ameaçando gravemente a vida do paciente. Em relação aos jovens, uso de drogas pode estar diretamente ligado à rebeldia e à transgressão inerente a esta fase da vida. Então a família deve ser a base de todo apoio e limites necessários, agindo com flexibilidade e prática equilibrando a supervisão da qual o adolescente precisa.


Atualmente o mundo está cheio de diversas influências negativas, basta somente surgir a primeira oportunidade. Assim, a melhor saída, ou tratamento que se tem nessa situação, é passar por uma avaliação médica e ter acompanhamento multidisciplinar humanizado, de maneira que a pessoa possa se recuperar e ver quais estratégias será melhor para prevenção de recaídas. Tais caminhos designados para superar impactos do mundo das drogas precisam do apoio familiar, bem como do apoio psicológico e de reintegração social promovendo o bem estar social, sobretudo se o tratamento requerer a utilização de medicamentos.

Autor: Samir José Franzin

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