A jornada espiritual de um jovem dependente químico

Quero compartilhar aqui a experiência de um rapaz de 26 anos que, após 9 anos de uso problemático do álcool e outras drogas, acabou sendo encaminhado para a sua primeira e única “internação”, com o objetivo de realizar um tratamento de longo prazo em um ambiente protegido e destinado a quem buscava por abstinência de substâncias psicoativas de abuso.

Era março de 1998, ano em que o time do São Paulo comemorou o título do campeonato paulista, sobre o Corinthians, sendo que um dos gols foi do grande ídolo tricolor Raí. Em junho do mesmo ano seria realizada a Copa do Mundo de futebol na França e, ao chegar na instituição para dar início ao seu tratamento, o jovem ficou bravo e demonstrou sua indignação ao saber que possivelmente não poderia assistir aos jogos de futebol. Chegou a levantar a possibilidade de só vir para a internação após a tão importante Copa do Mundo.

Graças a experiência da equipe, que recebeu este jovem e sua mãe, a situação foi contornada e o jovem marrento e arrogante acabou cedendo. Agora convido você a realizar comigo um exercício mental: imaginem o estado de tensão desta mãe, ao ouvir estas “asneiras” do filho. Penso que a única coisa que ela queria da vida, naquele momento, era terminar logo aquela conversa para que o filho fosse admitido e iniciasse sua recuperação. No entanto, ainda tinha que viver mais aquele drama, já que prestes a atingir o seu maior objetivo, a “criatura” começa a fazer exigências para se internar.

Para quem tem algum dependente químico na família deve compreender ou até mesmo sentir o que esta mãe passou naquele momento, não é mesmo?

É incrível como a pessoa que adquire esta doença se desconecta da realidade ao seu redor e acaba tendo uma dificuldade absurda de perceber como as pessoas estão sofrendo ao seu lado.

Algumas perguntas ficam “matutando” na minha cabeça: será que este jovem sabia o que estava acontecendo ali? Será que ele não tinha nenhuma capacidade de autocrítica? Autoanálise? Será que ele não percebeu o absurdo que estava dizendo? Será que ele não percebeu que suas exigências eram insanas? Quase que surreais?!

Sendo bem realista, a resposta para todas as perguntas acima seria NÃO. Contudo, lá estava este jovem que, mesmo fazendo de tudo para dar errado na vida, ainda assim conseguiu ser aceito para o tratamento no Núcleo de Restauração Integral (NURI) da Comunidade Casa Esperança e Vida (CCEV), fundada pelo Frei Bernardo da Esperança, mais conhecido como Fradão.

O tratamento para a doença da dependência química, naquela época, possuía pouca sofisticação e escassa mão de obra qualificada e/ou especializada. O mais comum e mais acessível modelo de tratamento disponível era a passagem por uma Comunidade Terapêutica, e foi assim que este jovem deu início ao seu processo de abstinência de substâncias psicoativas (SPA).

Neste local a filosofia de trabalho era ORA ET LABORA (Oração e Trabalho) e, como objetivo “terapêutico”, a abstinência total de todas as substâncias psicoativas sem suporte farmacológico. Neste caso, o recém chegado teria que interromper, de imediato, seu relacionamento de uso problemático da cocaína, da maconha, das bebidas alcoólicas e do tabaco.

“Tudo menos isso, por favor não tira o cigarro” é o que diziam aqueles homens em processo de recuperação. Um ambiente totalmente livre do tabaco, o que a princípio era um horror, pois não eram incomuns as crises de abstinência da nicotina.

Em sua primeira semana teve muitas dificuldades de adaptação com a abrupta e radical alteração de sua rotina diária. Muitas balas, água e chás como instrumentos para aliviar as “fissuras”, insônia, crises de raiva, irritabilidade, ansiedade e por aí vai.

Com o passar dos dias e das semanas, era incrível o que acontecia. Ele ia aos poucos se desintoxicando e aqueles sintomas, extremamente desagradáveis do início, agora já não causavam o mesmo sofrimento.

Em síntese passou a seguir, de forma imperativa e sem negociações, a um cronograma de horários bem rígidos diariamente:

– Acordar às 6:00 da manhã, arrumar sua cama e ir para a capela
– Rezar o primeiro terço do dia e participar da celebração eucarística.
– Tomar seu café da manhã e ajudar na limpeza do espaço.
– Atividades laborais: incluía laborterapia com diversas atividades, com maior ênfase para as atividades com o “dr. Machado”, “dr. Rastelo” e “senhora enxada”, objetos hábeis em manter o cidadão bem ocupado mentalmente e fisicamente. Não faziam nenhum mal, pelo contrário, foram ferramentas de trabalho extremamente didáticas…rs.
– Às 12:00 almoçar
– Rezar o segundo terço do dia até às 14:00 e pausa para descansar.
– das 14:00 às 18:00 retorno ao trabalho com interrupção para o café da tarde.
– das 18:00 às 20:00 lazer, banho, rezar o terceiro terço e jantar.
– das 20:00 às 22:00 estudos, espiritualidade, reuniões, chá da noite e dormir.

Obs: Nesta rotina se incluíam leituras, momentos em grupo e idas ao Mosteiro da Esperança para participar das missas com o Irmão Bernardo (Fradão), às 7:00 da manhã todos os domingos. Esta era a atividade semanal mais especial para o jovem interno.

Uma rotina que de início foi bem difícil de se adaptar por se tratar de uma pessoa com a vida totalmente desregrada, sem horários, sem limites, sem obediência, sem interesses saudáveis e SEM SENTIDO DE VIDA ALGUM.

Este rapaz se sentia estranho pois estava ali tentando de alguma forma descobrir o que a vida ainda podia lhe oferecer. Apesar de ainda jovem, com apenas 26 anos, não se via mais capaz de produzir ou realizar coisas legais. Se sentia fracassado, derrotado, infeliz, desamparado, sozinho. Sem autoestima, sem autoconfiança, com muita raiva e rancor em seu coração.

Mas dia a dia foi entendendo melhor o significado de sua estadia neste lugar e começou a prestar mais atenção nas atividades espirituais praticadas ali. Ficava particularmente intrigado quando, em um determinado momento da celebração diária, as pessoas ficavam de joelhos diante de um objeto branco e redondo que ficava guardado em um outro objeto de cor dourada.

Ele repetia os movimentos dos outros, mas sem entender o que de fato estava fazendo. Achava estranho as pessoas se prostrarem diante daquele “objeto” de forma tão respeitosa.

Este rapaz até tinha feito seu Catecismo na Igreja Católica. Fez a Primeira Comunhão e tinha sido batizado, mas ali, não entendia do que se tratava toda aquela reverência.

Mas, de fato, a verdadeira catequese deste dependente químico começou a acontecer quando este jovem descobriu que, aquele objeto branco e redondo sobre aquela mesa, o altar, era a Hóstia Consagrada que, além de ser consumida nas missas, também poderia ser adorada em momentos de contemplação durante a missa.

Como assim? Adorar a hóstia? Por quê?

A catequese deste dependente químico começou a ser cada vez mais rica e aos poucos foi descobrindo coisas que não tinham o menor significado para ele até então.

A sua inquietação por saber mais o levou a um processo de descoberta dos ensinamentos cristãos. O terço não era mais apenas uma obrigação, mas sim um processo de devoção e de busca de sentido para tudo aquilo.

Descobriu que sua identidade cristã Católica se dava a partir da oração do terço, e com o tempo descobriu que o que fazia todos os dias era a oração completa do rosário e que nestas orações se aprendia mais sobre a vida de Jesus.

A catequese deste dependente químico se deu pela prática diária destas atividades e exercícios espirituais.

O maior e mais sublime ensinamento que este rapaz afirma ter recebido, e que sustentou todo o seu processo de recuperação, foi saber o que significava o milagre da Transubstanciação das espécies pão e vinho. Não entrarei no mérito desta questão aqui, mas penso ser uma ótima dica para quem quer se aprofundar nos mistérios do Divino, ou do Poder Superior sobre nós. Portanto, este filho amado de Deus descobriu que ao se ajoelhar diante daquele objeto redondo e branco, na verdade, estava contemplando e adorando Àquele que de alguma forma o havia conduzido até ali para iniciar o seu processo de renascimento para uma nova vida.

Estes relatos são reais e evidenciam a importância da ESPIRITUALIDADE na vida deste dependente químico que está em recuperação bem sucedida a longo prazo desde então.

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